Editorial

A patuscada da CPLP

Nada contra o alargamento da relevância internacional da Comunidade, mas se calhar o que está a mais é mesmo a Língua Portuguesa

A cimeira da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa que começa amanhã em Brasília é um acontecimento relevante. Infelizmente, não o é por boas razões.

António Costa leva ao Brasil uma ideia que já há uns anos faz parte do imaginário do PS: “liberdade de residência” para os cidadãos da CPLP, que é um maneirismo envergonhado para uma solução que na prática implica a liberdade de circulação entre cidadãos de todos os países da comunidade. A ideia é boa, e justa. Mas é também descabida: nunca passará no crivo dos parceiros de Schengen, que já têm dores de cabeça suficientes com os migrantes que teimam em ver na Europa um destino predilecto para viver.

Pelo meio o Governo português faz mais uma lavagem de ego a Obiang, que lidera um governo odioso na Guiné Equatorial. Mesmo confrontado com a recusa deste em erradicar a pena de morte no país, o executivo continua a preferir destacar uma inexistente evolução do regime, a coberto de uma moratória inconsequente sobre o mesmo tema. E o ministro dos Negócios Estrangeiros ainda se preocupa em destacar a aprovação dos estatutos da CPLP em Malabo, mas talvez fosse preferível dar importância ao pormenor de ninguém ensinar nem aprender português num país cuja página ofi cial na Internet está apenas disponível em inglês, francês e espanhol.

Mas a culpa não é do Governo português nem de António Costa. A ideia de descaracterizar a CPLP já é antiga e comum aos associados. Veja-se a outra novidade desta cimeira: o alargamento da base de países observadores associados com a adesão da República Checa, Eslováquia e Hungria — tudo países com um notável investimento na língua portuguesa, como é sobejamente reconhecido. Nada contra o alargamento da relevância internacional da Comunidade, mas se calhar o que está a mais é mesmo a Língua Portuguesa... E como a língua é mesmo um problema, o melhor é não incluir na agenda ofi cial os atrasos na entrada em vigor do acordo ortográfi co, para não parecer que até há opiniões diferentes entre os parceiros.

Será preferível admirar o plano da CPLP para os próximos dez anos, apresentado num documento vagamente presunçoso, que evita qualquer proposta concreta e objetiva. Assim, será difícil medir a dimensão do fracasso — ou da irrelevância — das medidas. É, no fundo, uma patuscada simpática onde não se leva nada demasiado a sério. Nem a língua, nem os direitos humanos, nem a prosperidade dos cidadãos.