“Nós, vindos dos PALOP, criámos o nosso próprio estilo de tocar”

Correu mundo e fixou-se em Inglaterra com novo som: o gumbé jazz. Bim Nó Bai, do guitarrista guineense Tony Dudu, é apresentado este sábado na Fnac Chiado, às 17h.

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Tony Dudu: “Em Londres as pessoas ficam à espera de nós. E dançam!” DR

Poucos em Portugal o conhecerão pelo nome, mas já o terão visto a tocar com músicos como Valdemar Bastos, Manecas Costa, Justino Delgado, Eneida Marta, Don Kikas, Bonga ou os grupos Issabary e Tabanka Djazz. Guineense, guitarrista há algumas décadas, Tony Dudu surge agora com um disco em nome próprio, Bim Nó Bai, gravado este ano e nestes dias em fase de lançamento. Este sábado, 29 de Outubro, estará na Fnac-Chiado, às 17h. E vai andar por aí.

Nascido em 17 de Março de 1962 em Bambadinca, na Guiné-Bissau, Tony Dudu sempre se sentiu atraído pela música. “Tinha 9 para 10 anos, arranjei uma lata, um cabo de vassoura, duas linhas de ferro e comecei a dar os primeiros sons.” Esses tempos recorda-os neste disco, numa composição tocada em solo absoluto chamada Viola di lata. Não tardou a fazer parte de grupos. Primeiro os Lacarães, que actuava em festas e bailes: “Tocávamos música da Guiné-Bissau, uns temas do Bob Marley, algumas músicas das Antilhas.” Depois, os África Livre, ainda na Guiné.

Em 1988 viajou até Portugal, com a cantora guineense Dulce Neves, que ia participar numa conferência da Organização Mundial de Saúde. “Depois decidi ficar em Portugal, à procura de novos horizontes musicais.” Tocou e gravou com os Issabary, radicados em Lisboa. “A minha primeira experiência musical em Portugal foi com o Waldemar Bastos. Eu tocava na discoteca Lontra, ali na rua de S. Bento, ele apareceu lá e desafiou-me para ir tocar com ele a Nova Iorque. Fomos, mas nem sequer tive tempo de ensaiar com o Waldemar. Felizmente correu tudo bem.”

Foi, nesses tempos, pisando outros palcos. Estados Unidos, Alemanha, Canadá, Brasil, Costa do Marfim, Mónaco, Inglaterra. E foi para esta que se mudou, em 2007, como mesmo desejo que o levara a ficar em Portugal: abrir novos horizontes, tocar com outros músicos, tentar outros sons. “Não foi fácil formar um grupo, porque quase todos os músicos têm os seus projectos. Porque nós, vindos dos PALOP, criámos o nosso próprio estilo de tocar. Passaram vários músicos por esta formação e demorei a conseguir definir o estilo que queria.” Chamou-lhe gumbé jazz. “É uma fusão de ritmos de África e dos Estados Unidos com ritmos latinos, incluindo do Brasil. O gumbé é um estilo musical da Guiné-Bissau e a principal ligação, neste som, é com o jazz.”

O gumbé jazz deu nome ao grupo e som ao disco. Gravado em Abril, conta, para além de Tony Dudu (guitarra), com Benjamin Burell (teclas), Elaine da Silva (voz), Helder Pack (percussão), Elias Kacomanolis (bateria e voz), Tello Morgado (percussão), Emmanuel Oladokun (baixo). “Aqui em Londres nunca toca só uma banda, tocam duas ou três. E o Gumbé Jazz é sempre a última banda a tocar, porque as pessoas ficam à espera até ser a nossa vez. E dançam!”