Opinião

João Lobo Antunes passou à eternidade

É difícil, se não mesmo impossível, encontrar quem se identifique tanto com o que é a (boa) Saúde que se faz em Portugal

Nascido em Lisboa em 1944, com um percurso brilhante no Liceu Camões e na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se licenciou com a média de 19,47, escolheu ser neurocirurgião. Entre 1971 e 1984 trabalhou na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde se especializou.

Aos 40 anos resolveu regressar a Portugal, assumindo a direção do Serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, como professor catedrático da Faculdade de Medicina. Mais do que diretor do Serviço de Neurocirurgia durante 30 anos, foi o criador e impulsionador da nova escola de neurocirurgia portuguesa.

Membro destacado de diversas sociedades científicas portuguesas e europeias e de vários conselhos editoriais das principais revistas de neurologia e de neurocirurgia a nível mundial, era atualmente presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e vice-presidente do Health Cluster Portugal.

É difícil, se não mesmo impossível, encontrar quem se identifique tanto com o que é a (boa) saúde que se faz em Portugal como João Lobo Antunes.

Ele associava a uma inteligência notável a vontade de fazer, e de fazer bem, que se refletiu sempre não só nas suas atividades pessoais enquanto médico, professor, escritor, eticista, como também, e de forma superior, na organização do edifício da saúde.

Entendeu muito cedo a evolução que as ciências da saúde iriam experimentar nas últimas décadas, tendo-a descrito de forma magistral no seu livro Nova Medicina.

Antecipando-se àquilo que se veio a chamar a "medicina da narrativa", João Lobo Antunes, que foi instrumental para a criação do Instituto de Medicina Molecular [de Lisboa] e para o desenvolvimento da medicina de precisão, assume nesse livro o valor insubstituível da medicina centrada no doente, regressando ao modelo que um dos seus grandes heróis, o prof. William Osler, havia defendido em finais do século XIX.

No mesmo sentido - leia-se defesa intransigente do interesse dos doentes - se devem entender a sua aposta na qualidade da formação médica e da promoção da competência profissional, por um lado, e o seu envolvimento na criação da Rede de Centros de Excelência Hospitalares para tratamento dos doentes.

Tal como fez quando se envolveu inteligente e entusiasticamente na fusão da Universidade Clássica de Lisboa com a Universidade Técnica, bateu-se sempre contra a fragmentação minifundiária “da” saúde, promovendo sinergias interinstitucionais e a colaboração virtuosa dos diferentes atores.

Também neste domínio - o das sinergias interinstitucionais - mostrou a sua maestria ao protagonizar a criação do primeiro Centro Académico Clínico português através da articulação, em consórcio da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, com o Hospital Santa Maria e o Instituto de Medicina Molecular.

Como profissional, foi um enorme exemplo para todos nós. Perfecionista, estudioso, com grande sensibilidade clínica, a forma dedicada, competente e rigorosa como servia os seus doentes era inigualável, algo que talvez só eles possam testemunhar apropriadamente.

Fez parte do núcleo de fundadores do Health Cluster Portugal (HCP), a que aderiu com entusiasmo, o qual se manteve até ao fim. Compreendia e defendia que, em Portugal, a tribo da saúde tem de se empenhar em conseguir ainda melhores resultados práticos e uma claramente maior valorização dos saberes disponíveis.

João Lobo Antunes pensava – e nós também – que, no nosso país, o nível de conhecimento na área da saúde acumulado nas Universidades e em diversos institutos de investigação é muito elevado e que o nível dos serviços disponíveis para a população compara bem com o que se faz na Europa. Mas, a transferência do referido conhecimento para a realidade do dia-a-dia, através de inovadores produtos e serviços, que sejam competitivos à escala global, é ainda débil e terá de ser fortemente reforçada.

Por isso deu o seu contributo – um muito importante contributo – para a constituição do HCP e para a defesa da implementação de políticas, de medidas e de atitudes que possibilitem o aparecimento de inovadores produtos e serviços de origem portuguesa na área da saúde, prestigiando-a e catapultando-a para níveis de excelência, mas também de grande contributo para o enriquecimento do país.

Conciliava uma grande capacidade analítica com um enorme poder de síntese. Raciocinava profundamente sobre os mais diversos temas, escrevia muito bem e tinha grandes qualidades de oratória. Foi um professor querido dos seus alunos e um orador brilhante e, por isso, muito requisitado.

Apaixonado pelos livros e pela escrita – deixou vários livros publicados –, era um homem educado, culto, de fino trato e de elevado nível intelectual, que foi, naturalmente, sendo aceite e acarinhado pelos círculos de influência da capital. Embora com uma vida pública relativamente discreta, foi assumindo progressivamente uma postura de verdadeiro senador. Foi mandatário nacional das candidaturas presidenciais de Jorge Sampaio e de Aníbal Cavaco Silva e, durante cerca de dez anos, membro do Conselho de Estado.

Recebeu uma enorme quantidade de distinções, de onde se poderá destacar o Prémio Pessoa, a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Santiago de Espada e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.

Sempre o admirámos muito, como um ser de características superiores, em certos aspetos mesmo ímpares. A sua dimensão intelectual e a sua competência profissional, aliadas à sua enorme força interior, à sua grande sensibilidade, ao seu humanismo e ao seu poderoso bom senso, faziam dele um ser invulgar, com o qual muito aprendemos e do qual guardaremos uma imagem muito bonita. Nele nos inspiraremos para procurar servir, cada vez melhor, os interesses de saúde das pessoas.