A reflexão da felicidade

O país é unânime no pesar pela morte de João Lobo Antunes, um luto merecido por um homem que foi dos nossos melhores

Em entrevista ao PÚBLICO, em 2001, João Lobo Antunes defendeu que “a grande doença do espírito é a infelicidade”. Falava da depressão, a doença cuja origem depende de factores orgânicos e psicológicos e que alastra nas sociedades abastadas. Também reflectiu sobre a esperança e o pessimismo, procurando um equilíbrio entre o que viu nos milhares de doentes que tratou no Hospital de Santa Maria.

Seria até fácil catalogar Lobo Antunes como um humanista, um cientista culto que cruzou pontes entre as ciências exactas e as humanidades errantes. Mas será bem mais interessante recordar a reflexão que procurou sobre a vida e a doença, especialmente a doença do órgão que sempre tratou: o cérebro e os seus profundos mistérios. Para lá disso reflectiu sobre a condição humana e a vida contemporânea, expressando as preocupações que o levaram da mesa de cirurgia aos palcos da vida política.

Lobo Antunes foi Prémio Pessoa, galardão que tem chegado aos que mais merecem. Foi neurocirurgião reconhecido e ensaísta de mérito. Mas foi mais do que isso, conseguiu tocar áreas que poucas vezes se aproximam e cumpriu um papel maior de cidadania.

Era agora presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, o último cargo público que ocupou – depois de se ter envolvido na vida política junto dos últimos Presidentes da República. Foi mandatário das candidaturas de Jorge Sampaio e de Cavaco Silva, ocupou lugar no Conselho de Estado e manteve sempre uma activa produção que rendeu sete ensaios e uma biografia.

Ficaram por publicar as memórias em que começou a trabalhar, mas deixou um último livro de ensaios com um título particularmente feliz. Ouvir com outros olhos é um esforço que mexe com a utilização dos sentidos, que leva a que o cérebro se cumpra ao exercitar os sentidos para compreender o mundo que nos rodeia. É também algo que fazemos pouco, independentemente de sermos cirurgiões, jornalistas, mecânicos ou poetas.   

E terá sido esse exercício dos sentidos que o aproximou das artes e o fez reflectir sobre os limites da capacidade humana – especialmente os limites que se delimitam no tão estudado cérebro. Mesmo assumindo que o seu maior talento foi ter sido bom aluno, reconheceu que teria preferido outros: “dava uma dúzia dos meus vintes para ter dez em piano”. As grandes vidas não se explicam facilmente.