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Pássaros com cores mais garridas originam mais facilmente novas espécies

Linhagens de pássaros com cores como o vermelho e o laranja originam novas espécies mais facilmente do que pássaros com cores mais estáveis

Investigadores do Porto e de Boston, Estados Unidos, concluíram que as linhagens de pássaros com cores mais garridas, como o vermelho e o laranja, originam novas espécies mais facilmente do que pássaros com cores mais estáveis, como o cinzento. Este é o principal resultado de um estudo realizado por Ana Gomes e Gonçalo Cardoso, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto (CIBIO-InBIO), e Michael Sorenson, da Universidade de Boston.

Com esta investigação a equipa pretendia verificar se os ganhos ou perdas de ornamentação sexual estão associados a uma maior especiação (criação de novas espécies), disse à Lusa Gonçalo Cardoso. De acordo com Ana Gomes, a ornamentação sexual são os carateres sexuais secundários que se desenvolvem nas espécies e estão associados ao reconhecimento entre estas e à escolha de parceiros.

No caso deste trabalho, onde foi analisada a família dos mandarins e bicos-de-lacre (Estrildidae) — que inclui cerca de 140 espécies de pássaros exóticos —, a ornamentação sexual é a coloração (cor ornamental) dos pássaros. "Consideramos as linhagens com cores mais saturadas como as mais ornamentadas". São exemplos disso "os vermelhos, os laranjas, os amarelos, cores mais vivas e fortes, que cobrem maiores partes da plumagem destas aves", explicou.

Com recurso a uma árvore genealógica, os investigadores estudaram a evolução da cor ao longo dos 11 milhões de anos da história deste grupo. Algumas destas espécies "são bem conhecidas como pássaros de gaiola", como é do mandarim de Timor e da Austrália, o diamante-de-Gould da Austrália, o calafate da Indonésia, ou os bicos-de-lacre e peitos-celeste de África, segundo um comunicado do CIBIO-InBIO. "Não só os ganhos de ornamentação sexual, mas também as suas perdas, podem afectar o reconhecimento de parceiros que, por sua vez, pode causar isolamento reprodutivo entre populações e, consequentemente, especiação", explicou Ana Gomes.

A cor pode mudar "antes da especiação ocorrer, e causar isolamento reprodutor, ou pode mudar depois, como consequência do isolamento reprodutor. Mas o mais provável é que as duas coisas aconteçam juntas e gradualmente", indicou Ana Gomes. Segundo a investigadora, a especiação em aves é lenta, porque normalmente passa muito tempo até se acumularem diferenças genéticas suficientes para que cruzamentos entre populações separadas não sejam viáveis. Em comparação, "a evolução de ornamentação pode ser rápida, e muitas aves desenvolvem preferências sexuais memorizando o aspecto dos pais".

Assim, "se numa população evolui uma diferença na ornamentação, isto vai diminuir a reprodução cruzada quando se encontram indivíduos de outras populações, facilitando a acumulação de diferenças genéticas entre populações e permitindo que a especiação progrida até ao fim", concluiu.

Embora a "hipótese de a ornamentação sexual promover especiação ser antiga", este estudo torna-se uma novidade pois a maioria dos investigadores, em trabalhos anteriores, "apenas testou se mais ornamentação está associada a uma maior especiação", obtendo resultados diferentes dos agora atingidos, referiu Gonçalo Cardoso.

"Mostrar que a ornamentação sexual está envolvida na especiação" é "também importante porque a ornamentação é afectada por muitos factores ecológicos, abrindo-se assim a porta a várias influências ecológicas desempenharem um papel na formação de novas espécies", lê-se ainda na nota de imprensa. O estudo deu origem a um artigo que vai ser publicado na revista científica internacional Evolution.