Torne-se perito

Um filme para Kiarostami a abrir o festival que ele próprio inspirou

Close-Up, que decorre até domingo em Famalicão, abre oficialmente esta quinta-feira com um filme-surpresa e com Bruno Pernadas a musicar Marinheiro de Água Doce de Buster Keaton.

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Abbas Kiarostami fotografado em 2007 AFP PHOTO / ERIC ESTRADE

Cristiana Rocha estava no final do tempo de gestação quando foi ver Dez (2002), de Abbas Kiarostami (1940-2016). Horas depois, nasceu o seu primeiro filho. Foi uma experiência que ficou de tal modo marcada na sua memória que acredita que há uma fotografia guardada algures – embora possa ser só uma construção, admite depois. Mas o cinema deste realizador passou a ter um lugar particular na sua vida e na da sua família.

Cristiana, 42 anos, é uma das cinco pessoas a expor a sua relação particular com a obra do iraniano em frente à câmara em Cinco para Kiarostami, que vai inaugurar a sessão de abertura de Close Up – Observatório de Cinema de Famalicão, às 21h45, desta quinta-feira, na Casa das Artes. Este filme não constava do programa do festival que começa na quinta-feira de manhã, pelas 10h, mas o seu director, Vítor Ribeiro, entendeu que faltava homenagear o realizador, que morreu em Julho deste ano, quando o festival já estava em preparação e que o inspirou ao ponto de lhe ter sido pedido emprestado o título.

 Cinco para Kiarostami é assinado por Vítor Ribeiro e pelo documentarista Mário Macedo, que em 2011 estreou O Tio Rui e estreou esta semana, no Doclisboa, Maria sem Pecado, em que continua a exploração do seu próprio universo familiar. O filme que apresenta esta quinta-feira em Famalicão “não tem qualquer relação" com o seu "trabalho habitual”, explica. Os planos foram definidos com os próprios participantes, a partir da sua própria relação com o cinema de Kiarostami.

O segmento de Cristiana Rocha é um plano do seu automóvel, enquanto circula pelas ruas do Porto com o filho, hoje com 13 anos. É mais um piscar de olhos ao cinema de Kiarostami no qual o carro teve uma presença recorrente – desde logo em Dez. Há outras quatro pessoas a partilharem essa relação com o cinema de Kiarostami neste filme, a mais nova das quais tem 15 anos.

“Sou da geração torrente [referência à partilha de ficheiros BitTorrent ]”, diz entre risos Milene Vale. Nunca viu um filme de Kiarostami em sala e encontrou-o, já não sabe muito bem como, em referências na Internet que a levaram a procurar a sua obra e a encontrar O Sabor da Cereja no YouTube “com uma qualidade fixe”. Na obra do iraniano cativa-a “a simplicidade” que este conseguia atingir e a capacidade “de conseguir encontrar algo belo em qualquer coisa”.

A inspiração para Cinco para Kiarostami vem de outro filme seu, Five (Dedicated to Ozu), a longa-metragem que fez em 2003 como homenagem a Yasujiro Ozu, 40 anos após a morte deste. Ora Ozu é um dos realizadores em destaque no Close-Up. A secção Histórias do Cinema propõe uma incursão no cinema japonês através de dois dos seus filmes (A Flor do Equinócio e Bom Dia), que aqui são colocados em relação com A Batalha dos Gauxinins e Memórias de Ontem, duas criações de Isao Takahata, um dos homens dos Studio Ghibli, a mítica casa de animação japonesa.

O Close Up organiza-se em torno de oito linhas temáticas, que incluem ainda a secção Fantasia Lusitana, que reúne um conjunto de filmes de realizadores nacionais com uma componente diarística ou experimental, ou Cinema Mundo, em que será feita uma retrospectiva do brasileiro Gabriel Mascaro, o autor de Boi Neon (passa sexta-feira, às 21h45).

Este é um festival de cinema atípico. Não tem uma secção competitiva e faz acompanhar uma parte dos filmes – como os da secção Cinema Mundo – de conversas com críticos, programadores e cineastas sobre as obras antes exibidas. Além disso, os quatro dias de programação que se prolongam até domingo são apenas o primeiro episódio de um ciclo mais longo que terá “réplicas” ao longo do ano, a cada dois meses.

Mas, como é um festival, há também uma componente festiva com um filme-concerto, O Marinheiro de Água Doce de Buster Keaton, musicado pelo quinteto de Bruno Pernadas, imediatamente a seguir à apresentação de Cinco para Kiarostami. No final de cada um dos quatro dias há também lugar às sessões de DJ Close Up, sempre a partir da meia-noite, no café-concerto da Casa das Artes, onde as bandas sonoras vão estar em diálogo com a história do cinema.