Os Quilt partem à procura de canções por descobrir

Os Quilt são uma preciosidade a descobrir urgentemente. Plaza, o seu terceiro álbum, mantém a luminosidade folk-rock anterior, mas cobre-a de orquestrações e de uma nova energia rock. Oferecem-nos um mundo que gostaríamos de habitar. Esta quinta-feira na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

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Chegámos a Plaza, e avançámos por Plaza, o terceiro álbum dos Quilt, com uma frase que ouvíramos ao baterista John Andrews há dois anos, quando era notícia Held In Splendor, o disco anterior. “A suspensão da descrença é o objectivo principal das manifestações artísticas. Esquecer tudo o que está à volta, excepto a arte que tens perante ti”. É esse o efeito que provoca em nós a banda de Andrews e dos guitarristas/vocalistas Shane Butler e Anna Fox Rochinski, a que se reuniu entretanto o baixista Keven Lareau. Os Quilt são um dos segredos mal guardados da música americana recente. A descobrir urgentemente.

Antes, uniam as vozes em harmonias saídas da impoluta galáxia dos Byrds e erguiam-nos nos céus para ver mais claramente. Criavam canções em suspensão sobre paisagens naturais (reais ou imaginadas) e sobre uma era, a da música californiana da década de 1960 e início da seguinte. Agora, com Plaza, a suspensão da descrença tem a mesma natureza, mas deita mão de outras ferramentas. Ganhou mundo e nada perdemos. Os Quilt continuam a criar música que desejaríamos habitar. Esta quinta -feira à noite estarão na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, naquela que será a sua estreia em Portugal (22h, 8€, e primeira parte a não perder, responsabilidade de Jasmim, ou seja, Martim Braz Teixeira, dos Mighty Sands).

Produzido por aquele que, em analogia conhecida, certamente forçada, poderemos considerar o 5º Quilt, Jarvis Taveniere, músico dos Woods, Plaza mantém a luminosidade das melodias e o apreço pelo formato canção canónico, mas acrescenta ao psicadelismo folk-rock anterior uma discreta camada de shoegaze, outra de orquestrações sumptuosas, outra ainda de electricidade rock’n’roll, como no final de Our ways, a última canção.

Anna Fox Rochinski explica as mudanças operadas de forma simples: Plaza “é um pouco mais conciso, um pouco mais upbeat, mais pop e mais rock”. Di-lo depois de contrapor que, se este álbum pode ser visto como o do regresso à cidade, depois de um Held in Splendor que, como nos dissera John Andrews, fora inspirado “pelo tempo passado em parques naturais”, não deixa de ser curioso que tenha nascido enquanto ela se refugiava da agitação urbana “numa pequena casa no campo, no meio do nada”. Fala-nos então de uma das canções que nele canta, Roller. “É sobre afastar-me das pessoas, do stress, das emoções que se soltam quando estamos rodeados de gente a toda a hora. Assim que me mudei”, isolada, “senti-me imediatamente melhor. O pior era quando sentia que não vivia realmente em lado nenhum por mudar de lugar constantemente”.

Plaza não nasceu da mudança de vida dos seus membros. Nasceu da multiplicação de concertos e digressões, ou seja de hábitos de palco, e da forma como isso contaminou a música. E nasceu de uma vontade de procurar algo mais. “O nosso produtor queria que a base das canções passasse uma sensação de ‘ao vivo’. Esse foi o primeiro passo. Depois, procurámos contrapor a isso algo de luxuriante, com a ajuda, por exemplo, do quarteto de cordas”.

Ao longo da entrevista, conta-nos que, enquanto gravavam Eliot St., ouviam Karma police, dos Radiohead, e pensavam “no facto de ser uma canção rock com groove, mas com uma guitarra acústica como centro”. Diz-nos que ouvia os alemães Can e a galesa Cate Le Bon, que curiosamente estará em Lisboa, no Musicbox, dois dias após o concerto dos Quilt. Recorda que falou muito de Jean-Claude Vannier, autor das orquestrações de álbuns de Serge Gainsbourg como Histoire de Melody Nelson. E, por fim, suspira. “Mas há tantas vozes e inspirações na banda, tantos lugares que podemos canalizar…”. Há, realmente.

Quase no final da entrevista, Anna Fox Rochinski dirá que “neste momento as pessoas estão constantemente a olhar para trás. Para a música dos anos 1960, quando os Estados Unidos e a Inglaterra estavam constantemente a saltar de um continente para o outro e a influenciarem-se mutuamente. Mas agora tudo isso se misturou numa história única, numa colecção de música. É uma história comum, partilhada, que pertence ao mundo e não a um lugar ou a outro”. Os Quilt mergulham nela e deixam-se levar. Procuram canções por descobrir. “Give us the undiscovered”, canta Anna em Roller