João Lobo Antunes, escritor

Só essa empatia com a doença e o sofrimento, resgatam, acreditava ele, os limites da medicina e da ciência.

Faz um ano, poucos dias menos, que João Lobo Antunes, já doente, me deu a honra e ao mesmo tempo a responsabilidade de apresentar aquele que viria a ser o último livro que teve oportunidade de publicar em vida, Ouvir com Outros Olhos. Desde esse Novembro até hoje, ele assumira entretanto o firme desejo de escrever um novo livro, desta vez de memórias familiares e pessoais, que ele afeiçoava tanto e faziam parte da sua especial veia literária, desde um dos seus primeiros livros, com o ensaio de recordações sobre Nova Iorque (2003).

JLA começou cedíssimo, com 22 anos, a publicar artigos científicos e nunca mais parou. Depois de regressar a Portugal, já com boa parte da carreira feita, em 1985, terá publicado o seu primeiro artigo fora da estrita publicação profissional ao escrever sobre os Aspectos éticos do treino cirúrgico no Jornal das Ciências Médicas. Não li o artigo mas era já a preocupação ética que o acompanhará até ao fim da vida como presidente da Comissão Nacional de Ética. Estive, em compensação, na Comissão de Ética da Faculdade de Medicina de Lisboa e do Hospital de Santa Maria a convite dele e sei, de fonte directa, que a ética médica, do ensino e da investigação constituiu uma preocupação constante que tornava essas reuniões em momentos fortes de troca intelectual, como ler outros tantos ensaios seus!

Só começou a reunir os seus ensaios e a publicá-los, sempre com a editora Gradiva, a partir de 1996, há vinte anos exactamente. A profissão, seja enquanto médico e professor de medicina, seja como profissional liberal mas também como membro destacado do Sistema Nacional de Saúde, ocupa um espaço permanente nos seus livros. A ética, como já vimos; a relação com os doentes, desde os mais anónimos aos mais próximos, como o irmão, o escritor António Lobo Antunes; e last but not least os fundamentos filosóficos, bem como sociais e públicos da medicina.

Esta linha de reflexão está patente num dos melhores ensaios que conheço sobre os primórdios da construção do SNS, publicado no seu último livro, onde simultaneamente faz uma das exposições porventura mais completas sobre aquilo a que chamou, poeticamente, O consolo das Humanidades, um ensaio que o autor me fez o favor de «oferecer» para o meu próprio livro de aposentação e que coligiu depois no seu livro de 2015. A profissão era aliás o título de um ensaio que publicou no número especial da revista Análise Social, do Instituto de Ciências Sociais, em 2003!

É nas humanidades que o médico e, por extensão, todo o profissional que lida com o humano, obtém o «consolo para a limitação que a técnica mais avançada e o profissionalismo mais competente acabam sempre por revelar. Perante a necessidade de escutar o doente de modo diferente, dialógico, só a abertura à cultura e à arte; só a leitura dos clássicos que JLA afeiçoava como Montaigne; só “escutando o rumor dos cavalos como o índio que coloca o ouvido no chão”, como escreve; só essa empatia com a doença e o sofrimento, resgatam, acreditava ele, os limites da medicina e da ciência.

Outro grande médico, também amante de arte e literatura no sentido forte da expressão, tão próximo de JLA como um membro da família, o Prémio Nobel Egas Moniz, deu-lhe o ensejo da publicar a sua obra mais extensa, Egas Moniz – Uma Biografia (2010), amplamente pesquisada, para transmitir uma vez mais essa a sua veia memorialística que aqui se aproxima de um romance com o qual se parecerá talvez o livro em que estava a trabalhar. Ficamos com esperança ardente de ainda ler João Lobo Antunes nesse futuro livro!