Angelina Litvin/Unsplash
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Megafone

E tu, já deste um preservativo à tua filha?

No outro dia a tua filha ligou. É uma menina! “E o pai, quem é o pai?”, perguntaste no fim, “Ó mãe, o pai não sei, foram tantos...”

Porque a tua filha não é um anjo nem uma santa, é uma mulher, olha para ela, cresceu, como tu também cresceste e ansiaste, a olhar para a rua, para os outros rapazes e para o relógio, mordendo os lábios à espera da hora de sair lá para fora, a correr com os pulmões cheios de liberdade atrás das amigas e dos amigos, dos jogos, dos encontros às escondidas mais as tardes no café e na praia e os Verões de olhos nos olhos, mãos dadas feitas para se dar, seguras por dez dedos ou apenas o anelar.

Porque tudo acontece, tu aconteceste e a tua filha também. E talvez por a tua filha ter acontecido sem que dela estivesses à espera, numa adolescência ainda demasiado adolescente, agora achas por bem trancá-la em casa ao melhor estilo de uma Rapunzel, longe das amigas e dos amigos, dos jogos e dos afectos, a rezar para que a adolescência passe rapidamente sem a semente da vergonha, mais uma vez, a assombrar a tua vida.

Mas, e na escola? Na escola agora querem distribuir preservativos às crianças e tu, indignada, já lá foste acusar o senhor director de querer incentivar as crianças a “dar pinocadas na sala de aula”, armando uma daquelas peixaradas épicas com direito a vídeos no YouTube e não sei quantos likes no “fuças”.

De nada valeu ao senhor director explicar que as crianças não passam o dia todo na escola, que o elevado preço dos preservativos é, isso sim, um incentivo à gravidez que não se quer e à transmissão de doenças, educar para a sexualidade não é praticar a sexualidade e os centros de saúde até já distribuem preservativos a quem por lá quiser passar. Porquê? Porque a tua filha não é uma “p...” (como tu também não foste e ai de quem diga o contrário) e nem vai andar com a “barriga à boca“, porque a escola é para aprender e não para andar com a cabeça na lua a pensar onde vão fazer ”essas coisas”, em casa já chega o que ela vê na televisão e “a partir de amanhã a minha filha não vem mais à escola”.

Por isso, e porque a abstinência é o melhor remédio para todas as asneiras, não te preocupes, porque a tua filha nunca fez sexo nas aulas, não, nas aulas não, só nos intervalos e nas saídas. “Ah, sorte madrasta!”, disseste tu cara a cara com aquela gravidez.

Infelizmente, e porque para cada problema há uma solução, abortos nunca fizeste mas desmanchos já foram dois ou três, foste falar com a tua filha, a mesma que entretanto te fugiu de casa levando no ventre a tal liberdade, a única razão do seu ser. Lá na rua, outra vez, não se fala de outra coisa e há seis meses que ninguém te vê no mercado.

No outro dia a tua filha ligou. É uma menina! “E o pai, quem é o pai?”, perguntaste no fim, “Ó mãe, o pai não sei, foram tantos...”.