Valorizar o Convento dos Capuchos é devolvê-lo à natureza

Nos próximos dois anos, os espaços vão ser requalificados e renaturalizados. Haverá ainda um centro de interpretação, um espaço para actividades pedagógicas e uma “casa das bicicletas”, de apoio às actividades desportivas na Serra da Sintra.

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enric vives-rubio
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Já começou a reabilitação do mais frágil e único monumento da Serra de Sintra. Frágil pela sua pobreza. Único pela sua fragilidade. O Convento de Santa Cruz dos Capuchos, edificado quinhentista que albergou a ordem dos Capuchos – como ficaram conhecidos os frades franciscanos que habitavam em reclusão nesta serra – é alvo de obras de valorização. Na semana passada, começou a empreitada de recuperação dos caminhos no interior da cerca conventual.

Até ao final de 2018, os vários espaços do convento vão ser requalificados e os caminhos renaturalizados. Será criado um centro de interpretação, um espaço para actividades pedagógicas e uma “casa das bicicletas”, de apoio às actividades desportivas na Serra da Sintra. No desenvolver das obras, o espaço estará sempre aberto o público, garante Manuel Carrasqueira Baptista, presidente da Parques de Sintra, que detém a gestão do convento desde a sua criação em 2000. No total, as obras vão custar cerca de 3 milhões de euros.

Apesar da complexidade da obra, os objectivos são claros: preservar ao máximo aquilo que é o edificado original e aproximar os espaços do convento aos valores sob os quais foram criados. Intenção que é unânime à equipa multidisciplinar - de engenheiros civis, engenheiros florestais, arquitectos, arquitectos paisagistas, arqueólogos e técnicos de conservação e restauro – que acompanhou o PÚBLICO ao local.

Querem restaurar a aura austera, de pobreza, meditação e reclusão em que viviam os frades capuchos. O mais próximo da natureza quanto lhes era humanamente possível. Despojados de riqueza e de bens materiais. Completamente alheios ao conforto. Despojos que os aproximariam da salvação e do divino.

Uma das intervenções mais significativas é a renaturalização do espaço próximo do convento. O plano é inverter toda a intervenção moderna nos caminhos, feita ao longo dos anos para adequar o espaço ao turismo: retirar os bancos e o edificado contemporâneo, refazer os caminhos à escala humana, em terra, reflorestar com as espécies autóctones que rodeiam o monumento. “O convento é muito orgânico, parece que nasceu da terra. Queremos devolvê-lo à natureza”, descreve Nuno Oliveira, director técnico para o património natural.

“Queremos que as pessoas, quando passam a bilheteira, tenham desde logo o ambiente que o convento tem: dentro da natureza, rodeado de vegetação, entre os rochedos.” Começam assim por desaparecer os pavimentos em gravilha e em asfalto, a delimitação dos canteiros e a relva. O edifício que hoje é a loja e a cafetaria vai passar para a entrada, junto à bilheteira. “A intenção é fazer com que o caminho pareça parte do próprio convento”, remata Nuno Oliveira.

Este é, de longe, o edificado mais pobre das oito propriedades gerida pela Parques de Sintra. Também o mais vulnerável aos elementos – à agressividade do passar do tempo e do clima num ambiente tão particular como é o desta serra. Contorna-se a fatalidade: “a dureza deste local, a singeleza dos materiais e o desgaste provocado pelo tempo, pelos visitantes e pelos anos de abandono a que esteve dotado justificam a necessidade e a urgência desta intervenção”, refere Pais Simões.

Os estudos começaram em 2011. Fizeram-se as primeiras escavações arqueológicas na zona das hortas – um terreno verde, visto por quem desce as escadas do claustro – e hoje continuam no terreiro da fonte, à entrada, e junto ao claustro.

Nos últimos cinco anos, a equipa documentou-se ao máximo, num extenso trabalho de compreensão, pesquisa e inventariação. “Mas este é um processo dinâmico, não é possível dizer que vamos parar de estudar até tudo estar concluído”, salienta Gonçalo Pais Simões, director técnico para o património construído.

Nas paredes e no chão, as sondagens arqueológicas encavam por entre a história que se sobrepôs à história mais antiga. Com a extinção das ordens religiosas em 1834 e a expropriação dos frades que o habitavam, o convento passou para as mãos de Francis Cook, visconde de Monserrate. Em pleno século XIX, os terrenos à volta do convento foram usados como jardins de lazer e passeio – ao estilo romântico - contíguos ao Parque e Palácio de Monserrate. Às intervenções românticas, seguiu-se o abandono: sob tutela do Estado desde 1949, o monumento esteve entregue à degradação e fechou ao público entre 1998 e 2001. Não era alvo de intervenções de valorização significativas desde a segunda metade do século passado.

E o processo de pesquisa está longe de ser simples ou rápido, dada a falta de documentos. Com o fim das ordens religiosas, os (poucos) objectos existentes no convento foram vendidos em hasta pública. O que restou ficou no local, aberto ao roubo.

Estudam-se ainda as opções de arquitectura e engenharia da época – não só para conhecer o edificado, como também para compreender como viviam e o que conheciam os frades. As maiores surpresas têm surgido do estudo do sistema tradicional de distribuição de água, que alimenta os tanques e fontanários do convento. A água circulava constantemente, criando um sistema de esgotos interno, o que demonstra uma preocupação “fora do comum” com a higiene, em plena Idade Média onde eram conhecidas as poucas condições de salubridade, constatou a equipa.

O restauro do convento vai incidir principalmente na reabilitação das coberturas e na recuperação dos elementos decorativos. A instalação de infra-estruturas de abastecimento de água, esgotos, energia e telecomunicações também já está em andamento.

Caso se concretizem os planos da equipa da Parques de Sintra, daqui a dois anos, a intervenção moderna estará o menos visível possível. Aproxima-se à natureza o que à natureza pertence.

“Casa das bicicletas”

Em Fevereiro, deverá estar em cima da mesa o plano para a construção das estruturas modernas de apoio aos visitantes (bilheteira, loja, cafetaria e instalações sanitárias), colocadas à entrada. Prevê-se que sejam construídas com cortiça e outros materiais naturais, para que se possa aproximar o mais possível às características do convento.

Também à entrada, um dos edifícios vai ser reabilitado para a criação da chamada “casa das bicicletas” – um espaço que terá cafetaria, balneários e uma pequena oficina de apoio aos praticantes de ciclismo e BTT da Serra de Sintra.

A requalificação estende-se ainda ao parque de estacionamento e ao espaço da Reserva de Burros (onde era o antigo parque de campismo), na Tapada de D. Fernando II.

Centro de interpretação

É no antigo celeiro do mosteiro, após a sua recuperação, que vai ser instalado o centro multimédia de interpretação do convento. Uma vez que as visitas ao monumento não são guiadas e a Parques de Sintra optou por não colocar explicações no interior do convento, neste centro vão estar disponíveis informações sobre os diversos espaços e divisões deste monumento (muitos deles de difícil interpretação para quem não conhece a história do local).

Espaço pedagógico

Outros dos edifícios devolutos é a casa da horta, situada junto à saída do convento. O edifício vai ser reabilitado para dar origem a um espaço destinado à realização de actividades pedagógicas e aberto a serviços educativos, quer seja a visita de escolas, quer sejam actividades da iniciativa da Parques de Sintra.

À volta, o espaço das hortas será também alvo de recuperação, assim como os espaços interiores à cerca conventual. Prevê-se que em quatro meses estejam terminadas as obras nestes caminhos.