Entrevista

“Se acabou a austeridade, como é que não têm 50% nas sondagens?”

Pedro Passos Coelho diz estar “muito confortável” perante os apelos do Presidente da República ao diálogo e à criação de alternativas, garantindo que o PSD tem propostas para o país.

Como se sentiu, no Fórum da Competitividade, a ouvir o Presidente da República a dizer que a oposição tem de ter políticas alternativas?
Muito confortável porque a oposição, pelo menos o PSD, tem políticas alternativas. Já propôs várias vezes, no Parlamento, que pudesse haver até entendimentos importantes. Fizemo-lo a propósito da Segurança Social, para dar sustentabilidade às pensões. Infelizmente, o Governo na altura não aceitou. Fizemos propostas importantes no âmbito do financiamento para as empresas, do sistema de inovação, dos territórios de baixa densidade, da justiça, da qualificação dos portugueses. Propusemos medidas que não eram avulsas, podiam prefigurar entendimentos importantes em áreas que são fulcrais para fazer a única coisa que não está a acontecer, que é pôr o país a crescer a sério. E dar aos portugueses o conforto de que não vão andar todos os anos aflitos com os défices e com as dívidas, mas conseguirão construir um horizonte com maior prosperidade. Infelizmente, até hoje não conseguimos da parte do Governo nenhuma abertura significativa para estas discussões. Pelo contrário.

Não vê nas palavras do Presidente nenhuma forma de condicionar a sua liderança?
Não vejo nenhuma razão para isso.

Um ano depois, não devia estar a reconverter o PSD e a preparar uma alternativa ao actual Governo? Para quando as propostas?
Mas nós temos uma alternativa ao Governo. Temos vindo a apresentá-la consistentemente e as pessoas têm uma noção muito clara do que é que o PSD representa. Essa, portanto, é uma falsa questão.

A ideia que muitas vezes passa é de que a sua liderança e o PSD continuam reféns da sua governação. Percebo que há uma coerência de pensamento que é sua, mas muitas vezes o PSD aparece refém da governação.
Não creio que seja o caso. Repare o PSD tem uma história grande. O PSD não nasceu comigo nem nasceu nos últimos quatro anos. E temos de modo geral muito orgulho no passado do nosso partido. Os últimos quatro anos não foram anos de que o PSD se deva arrepender.

Mas o país mudou entretanto.
Felizmente, mas isso deve-se muito também àquilo que nós fizemos, justamente.

Mas uma proposta programática para o futuro…
Mas nós temos uma proposta programática para o futuro. Nós não íamos ficar presos ao passado. A proposta que eu fiz ao país nas eleições de há um ano atrás não era um regresso ao passado. Pelo contrário. Parti do princípio de que tínhamos ultrapassado aquela fase, que era a fase mais de emergência, e que nos íamos concentrar mais numa segunda vaga de reformas importantes para que o país não pudesse perder o momento, beneficiando de uma conjuntura externa mais favorável do que a que tinha tido em 2010 e 2011 para crescer de uma forma mais robusta. E essas propostas são conhecidas dos portugueses. Nós não precisamos de inventar propostas novas quando sabemos quais são os problemas que o país precisa de resolver.

Portanto, não se trata aqui de estar agarrado ao passado nem à minha herança. Felizmente a herança que temos é positiva. Apesar das dificuldades porque passámos, que foram muitas de facto, nós conseguimos, a partir de 2014, com a proeza de pôr a economia a crescer - que é uma coisa que hoje não se passa, ela está estagnada. E conseguimos conquistar uma posição de confiança que permitiu, sobretudo em 2015, que o investimento crescesse. Sem o investimento crescer não há sustentabilidade para o crescimento do médio e do longo prazo. E ele agora está a cair.

Diz que os portugueses percepcionam o programa do PSD e que o PSD tem uma alternativa. Olhando para as sondagens sente isso?
Não parece muito significativo, não é? É de espantar. Eu não gosto muito de comentar sondagens, porque acho que os políticos não se devem orientar por aquilo que em cada momento parece ser mais agradável ou mais popular. Às vezes, é preciso ter um rumo para poder chegar a algum lado. E isso, às vezes, traz menos apoio, mas é dentro de um determinado ciclo que somos julgados. É por isso que os governos precisam de um determinado período para poder executar as suas tarefas.

Mas, dito isto, acho extraordinário como é que um Governo que ao cabo de quase onze meses diz que devolveu mais rapidamente rendimentos, feriados, férias, acabou com a austeridade, não está com o apoio de 45%, 50% do país. Porquê? O que é que se passa? O Governo tinha uma estratégia que era mais ou menos esta: vamos melhorar os rendimentos para que a economia cresça, através do consumo. Porque é que a economia está a crescer menos do que há um ano atrás quando eu estava no Governo? Eu tenho uma explicação para isso. É porque há muitas pessoas que estão desconfiadas da solução e têm reservas, tem desconfiança sobre o caminho que está a ser seguido. E essa é a razão porque o PS não está com 45% ou 50% nas sondagens, apesar de estar a fazer tudo para poder agradar, comprometendo o médio e o longo prazo.