Fukushima: o quotidiano de uma cidade envenenada

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Dominic Nahr chegou a Fukushima no dia seguinte ao tremor de terra e ao tsunami de 11 de Março de 2011. "Horas depois ocorreram explosões de hidrogénio em dois reactores e uma foi tão potente que rebentou o tecto da central nuclear", descreve o fotógrafo, na altura ao serviço da "TIME". "Desde então existe um denso estigma em Fukushima — a gente, a sua terra, a sua comida e a sua mente foram envenenadas." Dessa experiência nasceu o projecto "Fall Out", que estará em exibição na segunda edição da exposição anual de fotojornalismo Sintra Press Photo, a partir deste sábado, dia 22 de Outubro no MU.SA (Museu das Artes de Sintra). Ao longo dos últimos anos, Nahr tem tido o objectivo de "entender e representar as marcas físicas, psicológicas e ambientais infligidas em quem vive na zona radioactiva e arredores". À "TIME", Dominic Nahr descreveu: "O medo e a ansiedade são persistentes e não te abandonam. Por vezes, as pessoas quebram emocionalmente diante de mim. É o medo do desconhecido — o perigo invisível aliado à falta de transparência [das autoridades] — que causa maior dano nos espíritos dos que foram afectados [pela tragédia]." Em Fukushima, o número de suicídios aumentou desde o desastre nuclear de 2011. O vídeo da "TIME" "Suicide in Fukushima: the unspoken legacy of a disaster" refere que o estigma associado à região faz com que muitas famílias não declarem a morte de parentes próximos como suicídio. Por esse motivo, os números oficiais estão longe de corresponder à realidade. Numa noite em que Dominic Nahr se encontrava alojado na casa de uma família de Fukushima, alarmou-o o súbito ruído de sirenes de emergência. Apressou-se até ao exterior e sentiu o odor a gás. Os bombeiros irromperam por uma das casas vizinhas e encontraram um homem que se tinha barricado no interior e suicidado. "O falecido trabalhava em 'part-time' na descontaminação da área afectada pelo desastre radioactivo de Fukushima." "Tínhamos a mesma idade", recorda o fotógrafo. Neste contexto, um dos grupos mais vulneráveis é o das pessoas que se dedicavam ao sector agrícola. Os alimentos cultivados na região tornaram-se impróprios para consumo. Os que dedicavam as suas vidas ao sector ficaram subitamente sem trabalho, e os proprietários dos terrenos viram-se donos de algo sem valor ou utilidade. Há também o caso de um casal cujo terreno estava numa zona que foi declarada como contaminada; "o que crescia naquele terreno deixou de poder ser vendido". "Ali, entre os campos, o homem passou 64 anos de vida, cultivando. Após disputa legal, a família recebeu compensação financeira do governo, mas a cara da mulher vê-se marcada por pesar e exaustão." Dominic Nahr já foi distinguido nos concursos World Press Photo, Sony Awards, Picture of the Year e os seus clientes editoriais incluem a revista "Time", "The New Yorker", "The New York Times Magazine", "National Geographic Magazine", "Stern", "Le Monde", "Médicos Sem Fronteiras" (MSF), entre muitos outros. Na inauguração, às 17h, estarão os três fotógrafos com trabalhos expostos — Mário Cruz, Dominic Nahr e Phill Moore —, que estarão disponíveis para conversar com o público sobre as suas imagens e temas relacionados com o fotojornalismo actual. A não perder.

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