Crítica

Todo o cinema de João Pedro Rodrigues

O Ornitólogo: um universo romântico, sanguíneo e visceral, filmado numa mutação constante – todo o cinema de João Pedro Rodrigues, portanto.

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O Ornitólogo: um universo romântico, sanguíneo e visceral, filmado numa mutação constante
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João Pedro Rodrigues é, provavelmente, demasiado novo para trabalhar “em revisão” da própria obra, mas umas das razões da singularidade de O Ornitólogo como parece acumular elementos e características espalhados pela sua obra, curtas e longas indiscriminadamente – ao acaso e sem esgotar: as personagens chinesas dos filmes de Macau, o bestiário de O Fantasma, o santo da Manhã de Santo António, a fronteira luso-espanhola de Corpo de Afonso. Não será, bem entendido, o mais relevante deste filme, mas como sinal tem a relevância suficiente para o vermos como um objecto onde conta muito a chave da ironia, usada como maneira de dispersar (e muito rapidamente) os trâmites de uma evolução narrativa “realista”, trocada pelas obsessões, pelo sonho, por uma loucura iconográfica (os pássaros...) onde tudo se mistura com tudo e a teatralidade queer (de certas coisas de Schroeter, por exemplo) convive com as sombras de Tourneur.

Da natureza, nas belas imagens do voo das águias e dos falcões no início, à mais acabada fantasia, feérica e sofisticada mas também artesanal e “popular” (o caretos), desenha-se um percurso feito para o espectador se “perder”, cheio de ecos e reflexos enigmáticos, mas que parece ser também, não menos enigmaticamente, uma forma de o realizador se “encontrar”, literalmente encarnando no corpo do protagonista. Em todo o caso, mesmo na irrisão (o último plano, à entrada de Pádua), vai desembocar em coisas relativamente simples, as mesmas que estavam no fundo de O Fantasma ou de Morrer como um Homem: a solidão, a necessidade do amor. É finalmente essa a “revisão” decisiva de O Ornitólogo, a de um universo romântico, sanguíneo e visceral, filmado numa mutação constante – todo o cinema de João Pedro Rodrigues, portanto.