Entrevista

Novo resgate? “Estamos pendurados em coisas muito ténues”

Ninguém sabe quanto tempo é que dura esta política monetária do BCE, alerta o líder do Fórum para a Competitividade.

Enric Vives-Rubio
Enric Vives-Rubio
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Pedro Ferraz da Costa, presidente do Fórum para a Competitividade, diz que não gostava que Portugal tivesse um segundo resgate, mas admite, em entrevista ao PÚBLICO e à Rádio Renascença, que estamos presos por coisas muito ténues e critica a falta de decisão dos governos.

Portugal está livre de um novo resgate?
Gostaria imenso que não tivéssemos de passar por um segundo resgate.

É um risco?
Neste momento estamos pendurados em coisas muito ténues.

O economista Vítor Bento dizia que estamos a construir uma cabana de palha. Concorda?
Absolutamente. Os políticos de todo o mundo e os europeus em particular conseguiram culpabilizar quase totalmente o sistema financeiro pelas dificuldades que tivemos. E se é verdade que muitos são criticáveis, não tinham o exclusivo da culpa.

Vários governantes colaboraram para todas estas bolhas de crédito imobiliárias que houve no mundo numa tentativa que os políticos têm sempre que é, se não lhes posso dar rendimento, pelo menos, dou-lhes crédito. Como os políticos acharam que era muito prático dizer que os culpados eram os banqueiros, a opinião pública ficou à espera que os políticos batam nos banqueiros…

Tivemos uma suposta saída ‘limpa’ do resgate e estamos outra vez a falar em casas de ‘palha’ apesar de termos saldos primários positivos no OE. Os grandes problemas estão na banca…
Os espanhóis fizeram o mesmo tipo de disparates, mas reconheceram que tinham uma bolha imobiliária. Nós não. Têm muita corrupção dentro do sistema, nós também. É preciso resolver, eles resolvem. Nós empurramos com a barriga. Quando tivemos o acordo com a troika, a Espanha, que tem mais peso político resistiu e teve um resgate para o sistema financeiro que foram à volta de 60 mil milhões de euros.

Nós tivemos 12 mil milhões e usámos metade.
É a tal incapacidade de tomar decisões. Os espanhóis, num tempo relativamente curto, sanearam o sistema financeiro. Foi tudo perfeito? Não sei. O resultado foi muito bom e o sistema bancário está a ter um papel importante em relação ao maior crescimento de Espanha. Todas as pessoas que têm alguma experiência no resgate de países ou de bancos dizem: decida como quiser, mas decida depressa.

Sem acordos para o investimento arriscamos um segundo resgate?
Ninguém sabe quanto tempo é que dura esta política monetária do BCE. É relativamente evidente que não nos conseguimos financiar nos mercados à taxa de juro que conseguimos obter no Banco Central Europeu (BCE). As taxas de juro já estão a subir e subiram mais do que qualquer outro país Europeu o que é um sinal de risco.

Ou fazemos alguma coisa rapidamente ou corremos um risco de novo resgate…
A política monetária do senhor Mario Draghi começou acompanhada da afirmação que isto era para comprar tempo para fazer alterações. Não era para ir vivendo.