Torne-se perito

Um pintor e o seu livro de 35 quilos na Feira de Frankfurt

David Hockney está a lançar o livro "mais completo" sobre a sua obra, edição gigante da Taschen, e foi o convidado da conferência de imprensa de abertura do evento que começa esta quarta-feira. Rendeu-se ao iPad e voltou a descobrir o desenho.

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David Hockney em pose ao pé de A Bigger Book REUTERS/Kai Pfaffenbach
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David Hockney e o seu livro REUTERS/Kai Pfaffenbach
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O livro de 35 quilos a ser transportado AFP PHOTO / dpa / Arne Dedert
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David Hockney mostra a sua arte AFP PHOTO / dpa / Arne Dedert
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David Hockney mostra a sua arte AFP PHOTO / dpa / Arne Dedert
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O livro editado pela Taschen em exposição na Feira do Livro de Frankfurt REUTERS/Kai Pfaffenbach
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David Hockney na conferência de imprensa AFP PHOTO / dpa / Arne Dedert /

Um livro de arte com 35 quilos vendido com uma mesa para o apoiar e com um desenho feito num iPad? Os tempos estão a mudar e de que maneira. O artista plástico britânico David Hockney, 79 anos, esteve esta terça-feira de manhã na conferência de imprensa de abertura da Feira do Livro de Frankfurt a apresentar o mais completo livro dedicado à sua arte, que será lançado quarta-feira, dia de abertura da feira, no stand da Taschen. A obra estará disponível para venda ao público em Novembro.

David Hockney: A Bigger Book abrange mais de 60 anos do seu trabalho – pelo menos aquele pelo qual o pintor quer ser lembrado. Parte da obra de adolescência do artista, quando este andava na Bradford School of Art, passa pelo que criou durante os efervescentes anos 1960, quando vivia em Londres, pelas piscinas que desenhou quando se mudou, nos anos 1970, para Los Angeles, e pelas suas mais recentes séries, as de retratos, de paisagens do Yorkshire e de desenhos feitos com recurso ao tablet.

É uma obra na linha do livro Helmut Newton SUMO, que a Taschen lançou em 1999, também com uma mesa desenhada à época por Philippe Starck. Pesa os tais 35 quilos, mede 50x70cm (se estiver fechado) e na sua versão mais barata, a de coleccionador, de que foram feitos dez mil exemplares, tem um preço de venda ao público de dois mil euros. Nesta versão, a obra é assinada pelo artista e vem com uma mesa para o pousar, desenhada pelo designer australiano mas radicado em Londres Marc Newson.

Na edição de arte, só 250 exemplares de cada versão, o preço aumenta porque além desta mesa de apoio e da assinatura o livro traz ainda uma impressão de um desenho de David Hockney feito em iPad (há quatro diferentes, todos de jarras com flores).

Desenhar na cama

Foi aliás dessa paixão recente de desenhar no iPad e, antes disso, num iPhone da Apple, que David Hockney falou durante a conferência em Frankfurt. “Sempre gostei de desenhar. O computador não nos impede de desenhar… eu sei disso por experiência própria. Quem adivinharia que o telemóvel reavivaria o desenho?”, perguntou, segundo a agência Reuters, enquanto mostrava um vídeo onde aparecia a desenhar flores, amigos ou a Torre Eiffel com recurso a estes novos gadgets e aplicações.

“As pessoas usam o iPad para as mais diversas coisas. A minha mãe teria adorado tê-lo para fazer as palavras cruzadas. Eu uso-o para desenhar. A variedade de cores e de possibilidades é infinita”, acrescentou ainda, lê-se no comunicado de imprensa da Taschen.

“O que é maravilhoso nisto é que posso acordar de manhã e começar logo a desenhar. Está tudo ali à minha disposição na ponta dos dedos, incluindo as cores”, cita o jornalista da Publishers Weekly, que também esteve na conferência.

“David Hockney é um dos mais multifacetados artistas dos nossos dias”, afirmou a propósito o director da feira, Juergen Boos, que participou na conferência juntamente com Heinrich Riethmüller, o presidente da associação de editores e livreiros alemães. “A abertura de David Hockney aos novos média e a utilização que faz das tecnologias digitais, que é verdadeiramente genial, tornaram-no um dos pioneiros da arte contemporânea. Ele é um representante ideal da síntese do digital e da estética na arte”, acrescentou Boos.

Pôr um pintor a abrir a mais importante feira mundial do mercado editorial é inédito: no ano passado, a honra coube ao escritor Salman Rushdie. E, claro, tudo isto acontece quase uma semana depois de o Prémio Nobel da Literatura ter sido atribuído a Bob Dylan e da polémica se seguiu. Mas se é verdade que os tempos estão a mudar, não é de agora. Só quem esteve distraído nos últimos anos é que não viu em que direcção a Feira do Livro de Frankfurt estava a ir, tornando-se cada vez mais uma feira de conteúdos, com espaços dedicados à música, à gastronomia, ao show cooking, ao cinema, à televisão e aos videojogos, à educação e às possibilidades das salas de aula interactivas e, obviamente, aos ebooks e às novas tecnologias.

Este ano, a novidade na feira é o THE ARTS +, um espaço dedicado ao "negócio da criatividade", onde museus como o Victoria & Albert, o Metropolitan Museum of Art, o Museum of Modern Art de Nova Iorque e o Google Cultural Institute têm stands. Esta quarta-feira ali decorre uma série de conferências em que arquitectos, artistas e directores de museus debatem os desafios do digital aliado à artes; David Hockney é um dos convidados.

Um dos projectos apresentados mistura inteligência artificial e impressoras 3D e vem da Holanda – já que a Flandres e os Países Baixos são os convidados de honra da feira neste ano: criaram uma “nova” obra de Rembrandt, com a ajuda de um algoritmo que calculou os traços encontrados nas grandes obras do mestre do século XVII.

Nesta edição da feira também serão mostrados livros como o do ilustrador Jimmy Liao, All my world is you, que ganha vida quando é "lido" com óculos de realidade virtual. A sensação é a de se estar dentro de um jogo de vídeo. Permite que o leitor interaja com a heroína da obra e tente fazê-la sorrir, por exemplo. 

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