Brutal, violenta e longa: assim será a reconquista de Mossul ao Estado Islâmico

Grupo jihadista criou "o inferno na terra" à volta da cidade. Operação para a libertar pode provocar uma crise humanitária de larga escala. ONU estima que um milhão de pessoas fiquem desalojadas.

Espera-se nova vaga de refugiados provenientes de Mossul
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Espera-se nova vaga de refugiados provenientes de Mossul AFP/RUAIRIDH VILLAR

Para “Leyla”, passar dias inteiros fechada em casa não é novidade. Essa tem sido a sua rotina desde que Mossul, a sua cidade no norte do Iraque, foi ocupada pelo grupo jihadista Estado Islâmico, no Verão de 2014. Sempre que saía de casa, era interpelada por combatentes do grupo que a obrigavam a tapar a cara por completo, em nome da obediência cega a uma interpretação extremista da lei islâmica, a sharia. E, por isso, Leyla, que não quis dar o nome verdadeiro durante a entrevista à revista Newsweek, não receia passar as próximas semanas fechada em casa. Agora, pelo menos, sabe que é por uma boa causa.

Retirar Mossul do jugo do Estado Islâmico é o grande objectivo da operação militar lançada na última madrugada por uma ampla coligação militar, apoiada pelos EUA. Trata-se de uma ofensiva complexa, que envolve bombardeamentos aéreos e brigadas de artilharia convencional, mas também guerrilha urbana, atiradores, minas, carros armadilhados e explosivos. Quando anunciou a ofensiva, o primeiro-ministro iraquiano, Haider al-Abadi, declarou que a “hora da vitória chegou”. Mas a vitória em Mossul terá um elevado custo humano.

Na segunda-feira, os primeiros tanques dos guerrilheiros peshmerga começaram a avançar na direcção da cidade, levantando grandes nuvens de areia e poeira, de acordo com a correspondente da BBC. “Se for morto hoje, morrerei feliz porque fiz algo pelo meu povo”, dizia um general curdo, às primeiras horas da manhã.

Leyla, assim como a sua família, também está consciente do risco que corre ao manter-se em Mossul durante a ofensiva. Mas a perspectiva de se verem livres do pesadelo da ocupação jihadista parece falar mais alto. “Morrer em liberdade é melhor do que viver sob o ISIS [acrónimo pelo qual o Estado Islâmico também é conhecido]”, diz.

Há vários meses que as forças iraquianas pró-governamentais, apoiadas por conselheiros militares norte-americanas, preparam a ofensiva que tem como objectivo retirar Mossul do domínio do grupo jihadista. Tomam ainda parte na operação forças peshmerga curdas, bem como elementos de tribos sunitas e unidades anti-terroristas iraquianas – são ao todo 80 mil militares de vários grupos com objectivos e motivações diversas e, por vezes, opostas, envolvidos numa operação complexa e que deverá durar semanas ou meses, segundo a generalidade dos analistas militares.

Cem mil refugiados

As Nações Unidas temem uma nova vaga de refugiados e já pôs em marcha planos de contingência para lidar com a crise humanitária anunciada. Quando Mossul foi tomada pelo Estado Islâmico, tinha uma população de dois milhões, que hoje deve estar entre os 1,2 e 1,5 milhões. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) estima que mais de cem mil iraquianos tentem fugir de Mossul para a Síria e para a Turquia durante a ofensiva.

Para fazer face às novas necessidades de acolhimento e protecção, o ACNUR emitiu esta segunda-feira um pedido de financiamento adicional de 61 milhões de dólares (55 milhões de euros) para fornecer tendas, fogões e material de Inverno. Em entrevista à BBC, o representante no Iraque do ACNUR, Bruno Geddo, diz que as autoridades iraquianas estão a tentar conter a fuga dos habitantes de Mossul. Durante o fim-de-semana, aviões iraquianos sobrevoaram a cidade e lançaram milhares de panfletos com instruções para os habitantes.

Escapar da cidade pode revelar-se bem mais perigoso do que permanecer em casa. “O ISIS sabe quais são as estradas para fora da cidade e eles vão matar as pessoas que tentarem escapar”, disse Geddo. “Existe apenas uma estrada apertada em que é seguro viajar. Se muitas pessoas tentarem usá-la vai haver engarrafamentos, que são sempre perigosos.” O responsável prevê que a ofensiva possa provocar cerca de um milhão de deslocados internos – que se juntam aos 3,3 milhões obrigados a abandonar as suas casas desde 2014 – dos quais 700 mil com necessidade de acolhimento temporário. Entre os que conseguirem escapar, cada família terá direito a um kit para montarem as suas tendas nos campos em que já não existam infraestruturas de acomodação suficientes. A ONU tem actualmente 50 mil kits deste género e planeia enviar para o Iraque cinco mil todas as semanas.

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Tal como Leyla, Abu Maher também pretende permanecer em casa durante a ofensiva e diz ter gasto o dinheiro quase todo em mantimentos. “Montámos uma sala fortificada na casa, pondo sacos de areia a bloquear a janela e retirámos tudo aquilo que é perigoso ou inflamável”, explicou à Reuters.

Os combates das próximas semanas prometem ser de grande brutalidade. “Isto é território urbano, vai haver combates rua a rua”, explica a correspondente da Al-Jazira, Zeina Khodr. Mossul “é densamente povoada e há preocupação em relação aos civis que estão basicamente presos dentro da cidade”, acrescentou.

Os militantes do Estado Islâmico são conhecidos por usarem civis como escudo humano e, numa altura em que o seu domínio territorial está mais ameaçado do que nunca, não é esperada uma retirada pacífica. “Eles cavaram trincheiras, li relatórios [em que se descrevia] que eles atiraram gasolina para essas trincheiras com a intenção de as incendiar”, diz à AP o coronel John Dorrian, porta-voz do Exército norte-americano no Iraque. “Basicamente, construíram o inferno na Terra à volta deles."