Entrevista

"É preciso ter grandes influências, não basta talento para chegar à F1"

Álvaro Parente fala em "politiquice e interesses" nos bastidores da Fórmula 1. No futuro, projecta outros investimentos para lá das pistas.

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Hugo Santos

Voltando ao tema da Fórmula 1, o Álvaro Parente, o António Félix da Costa e o Filipe Albuquerque, para citar apenas os casos mais recentes, tiveram sucesso nas disciplinas de antecâmara da Fórmula 1, mas depois falhou sempre algo no momento decisivo. É apenas uma questão de dinheiro?
Em algumas equipas o dinheiro chega, noutras nem isso. Há muita politiquice e interesses. Há três ou quatro pessoas que mandam e decidem mais do que os outros. É preciso ter apoios enormes por trás, mas também grandes influências. Não basta ter talento. Tivemos três boas hipóteses: eu, o Filipe [Albuquerque] e o António [Félix da Costa]. Infelizmente, não vejo agora ninguém com capacidade para poder fazer pontos e ganhar corridas. Deixámos escapar o momento.

O momento do Álvaro Parente parecia ter chegado em 2007, quando foi campeão na World Series by Renault, num campeonato em que o Sebastian Vettel também correu. O que falhou nessa altura?
São três ou quatro pessoas que mandam, os amigos do [Bernie] Ecclestone [risos]. Essas pessoas têm a influência de meterem directamente o Räikkönen da Fórmula Renault 2.0 para a Fórmula 1. Se não for assim, chega-se lá com muitos milhões. Mas isso não interessa. Há quatro ou cinco equipas onde vale a pena estar, nas outras não. É andar a fazer número.

O seu pai, que também foi piloto, foi a sua principal influência?
Sim, o meu pai e a minha família. Graças a eles tive a oportunidade de correr nos karts e tenho a carreira que tenho hoje. Faço o que adoro e, graças a Deus, tenho um bom contrato e a possibilidade de viajar.

Nessas viagens sobra tempo para fazer turismo?
Pouco. Tento conhecer sempre as cidades onde estou, mas não dá tempo para ver muita coisa.

Como é o seu dia-a-dia durante o campeonato?
Acordo sempre muito cedo, tomo o pequeno-almoço, vou para a pista, tenho duas reuniões, treinos outra vez à tarde, mais reuniões seguir, briefing com a equipa e depois faz-se a preparação para o dia seguinte. No final do dia, gosto de ir jantar fora. Se a minha namorada estiver, damos uma voltinha e depois é dormir para recomeçar tudo outra vez.

O campeonato durou cerca de sete meses. Esteve sempre nos Estados Unidos?
Não, foi sempre a ir e a vir. Foram muitas milhas. Este ano foi duro. É longe e perdemos sempre quase 24 horas só nas viagens e com os horários trocados andamos baralhados durante uns dias. Não é fácil.

Como imagina o seu futuro após terminar a carreira?
Gostava muito de ter outros investimentos, principalmente no sector imobiliário, mas mantendo sempre também uma ligação aos carros.

Tendo sempre a cidade do Porto como refúgio?
Nasci no Porto e gosto muito da Foz, onde vivo. Adoro estar aqui. Para algumas pessoas, que estão permanentemente no Porto, a cidade pode parecer pequena, mas é disso que eu gosto. Quando vamos às cidades grandes na Europa, perdemos uma hora e meia no trânsito. Isso para mim não dá. Tenho no Porto os meus amigos, a minha namorada e a minha família, de quem sou muito próximo. Vou estar sempre por aqui, mesmo que tenha que ser a ir e a vir.