E depois eles cresceram

Foram bebés protagonistas de uma campanha eleitoral, ainda que quase nenhum se recorde desse instantâneo que ficou para a história. A editora de fotografia do Washington Post foi à procura de quatro destas histórias, hoje homens e mulheres que já têm voz sobre a política.

“Olhem só, que belo espécime da infância norte-americana”, declarou Andrew Jackson ao examinar um bebé de cara encardida que lhe fora passado para as mãos numa das paragens da caravana eleitoral no início do século XIX. Seria este o momento pioneiro da mais sagrada das tradições em campanhas eleitorais — beijar bebés —, excepto que, neste caso, Jackson impingiu o menino para um outro político que ali estava, ordenando-lhe “Beija-o.” E afastou-se.

É óbvio que sabemos a razão pela qual as crianças desempenham este papel nas campanhas eleitorais: a humanização do candidato. Mas geralmente pouco ou nada sabemos sobre as vidas destes bebés e crianças, ou, antes de mais, por que razão os holofotes políticos se viraram para eles.

Luke Ervin

Luke Francis Ervin era um bebé sério. Quando lhe diziam para comer, comia. Quando lhe diziam para dormir, dormia. A 21 de Julho de 1992, Luke teve um encontro, fruto do acaso, com o candidato presidencial Bill Clinton. Este bebé tinha o hábito de olhar as pessoas directamente nos olhos e o candidato democrata não foi excepção. Na imensidão de eleitores, colaboradores e fotógrafos, Luke parecia ser o único que tentava, verdadeiramente, ver quem era este homem.

Mary Rodgers, a tia, tinha trazido o menino de cinco meses consigo, enquanto deixava a filha no treino de voleibol. Nessa manhã, Mary não sabia que a equipa de Clinton se tinha instalado na escola secundária de Seneca, em Louisville, no Kentucky. Luke fez a sua estreia perante as câmaras enfiado num macacão verde, azul, amarelo e vermelho coberto de vistosos jogadores de basebol.

Após a fotografia ter sido tirada, Clinton deu um beijo fugidio na careca do rapaz e entregou-o a Mary que, se já estava inclinada a votar em Clinton, depois daquela intensa ligação entre o candidato e o sobrinho ficou convencida.

Obviamente que Ervin não se recorda destes eventos. No entanto, em 2013, decidiu voltar a examinar atentamente Clinton. Quando o seu professor de História no Centre College em Danville, Kentucky, lhe atribuiu um trabalho de investigação à sua escolha, Ervin decidiu tentar perceber a razão pela qual os índices de aprovação de Clinton aumentaram após o escândalo com Monica Lewinsky. (“Ao que parece, Clinton não andava a pegar ao colo e a beijar apenas bebés, como eu, em eventos da campanha eleitoral,” escreveu na introdução.) O trabalho acabou por ser apresentado no colóquio anual da Associação de Ciência Política de Kentucky em 2014.

Ervin tem hoje 24 anos de idade e está no seu último ano de Direito na Universidade de Louisville, seguindo as pisadas do pai. Pretende votar em Hillary Clinton, mas não tem a certeza como é que Bill Clinton se vai ajustar ao papel de primeiro primeiro-cavalheiro: “Espero que... dê bastante apoio a Hillary e que não seja motivo de distracção.”

Fleure Fraser

Tinha apenas três anos a 29 de Junho de 1999, mas lembra-se dos momentos mais importantes desse dia. Lembra-se de ensaiar para o recital de dança do centro comunitário. Lembra-se de que os pais trabalharam em conjunto para fazerem os brilhantes fatos cor-de-rosa e quando, por fim, era chegada a hora de actuar na Feira de del Mar, ela dera o seu melhor.

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Ervin tem hoje 24 anos de idade e está no seu último ano de Direito na Universidade de Louisville. Pretende votar em Hillary Clinton

Contudo, quando lhe perguntam sobre o que aconteceu após ter saído do palco e ter sido subitamente levada por estranhos, não se lembra. Não se lembra de ser colocada em frente do candidato presidencial George W. Bush, enquanto este comia uma rosca de canela, nem de ter sido beijada nos lábios por ele.

A presença de Bush na feira que ocorre no Norte de San Diego fazia parte de uma visita pela Califórnia, onde os candidatos presidenciais do Partido Republicano não têm, geralmente, uma tarefa fácil: obter os votos dos hispânicos. Os republicanos começavam a ser vistos como o partido anti-imigração e antidiscriminação positiva, mas este grupo demográfico era a minoria com o crescimento mais rápido e, no passado, Bush tinha-se aproximado dos hispânicos no Texas. O candidato tinha estado  numa formação de tecnologia para minorias e falou em castelhano sobre educação. “Se não souberem ler, não conseguirão concretizar o sonho americano.”

O estratego político e guru de imagem Mark McKinnon estava a fazer filmagens naquele dia, para melhorar a imagem de Bush, enquanto o candidato se deslocava pela feira. Um assistente indicou Fleure a Bush, que se ajoelhou para lhe dar um beijo. Pouco depois, fez uma festa a uma ovelha.

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Fleure tem 20 anos e prepara-se para se candidatar à escola de Enfermagem. Vai votar pela primeira vez em presidenciais

Hoje Fleure tem 20 anos e está no seu último semestre no Cuyamaca College, em El Cajon, Califórnia. Está a preparar-se para se candidatar à escola de Enfermagem, o ponto de partida para se tornar parteira.

Fleure apareceu em vários meios de comunicação social, incluindo a CNN, MSNBC e Fox News, e os debates sobre política contemporânea são frequentes na casa dos Fraser. No entanto, Fleure está a ter dificuldades em sentir-se entusiasmada sobre a sua primeira oportunidade de votar em eleições presidenciais. 

O seu entusiasmo inicial com a candidatura de Hillary Clinton desvaneceu-se após ter visto Hillary a tirar tantas selfies com celebridades. Sente também que tem havido falta de respeito para com os candidatos e apoiantes adversários. Mas independentemente das desilusões geradas por esta campanha, Fleure sabe que, no dia das eleições, vai marcar presença com o seu voto, ainda que tépido.

Kate e Lindsay Handy

Nos autocolantes dos chapéus das gémeas lia-se “BUSH”. O candidato ria-se alto, enquanto puxava as raparigas para uma fotografia, segurando numa, de forma desajeitada, pela perna. Kathleen Anderson, a mãe, preparara-as para este momento: vestidos iguais, em azul-marinho com toques de vermelho — um patriotismo subtil. Sem esquecer as meias iguais, os sapatos iguais e, tendo em conta o dia invernoso em Provo, Utah, chapéus iguais.
No dia 9 de Março de 2000, Kathleen tinha ido buscar o seu filho de sete anos à escola, conduziu uma hora a partir de Salk Late City e esperou pacientemente por George W. Bush.

Quando chegou, reparou nuns quantos colaboradores da campanha eleitoral a apontarem para as suas filhas de sete meses, Kate e Lindsay. Portanto, não foi surpreendente que, após o seu discurso habitual, o candidato se tenha dirigido directamente a Kathleen e lhe tenha pedido para tirar uma fotografia com as suas filhas. Uma enchente de fotógrafos cercou-os e o ruído das câmaras preencheu o ar à volta.

Bush tinha uma razão especial para sorrir: o senador John McCain, rival de Bush e o mais temível obstáculo no caminho para a nomeação presidencial do Partido Republicano, desistira da corrida horas antes.

Hoje, já no último ano do secundário, Kate e Lindsay, de 17 anos, andam entretidas com as aulas e os treinos para a claque e a tentar perceber como se irá desenrolar o próximo capítulo das suas vidas. Lindsay está a pensar tirar uma licenciatura em Design de Interiores, e Kate está indecisa entre ser professora, treinadora de cheerleaders ou advogada.

Grande parte do conhecimento político delas vem da mãe. Em Agosto, Kathleen foi nomeada directora de comunicação da campanha do candidato republicano Donald Trump no Utah. Recorda-se de uma discussão, quando frequentava o ensino preparatório, sobre Ronald Reagan e Jimmy Carter como tendo sido “a primeira vez que se sentiu motivada na escola”. Por outro lado, as filhas só agora estão a começar a ganhar consciência política. Dizem que passarão a estar mais atentas assim que estiverem na idade de exercerem o seu direito de voto.

“Não quero ser o tipo de mãe que diz aos seus filhos o que pensar e o que dizer,” diz Kathleen.

Nick e John Poulos

Estávamos a 3 de Abril de 1988 e era o primeiro Domingo de Ramos para Nick e John Poulos. Para celebrar a ocasião, a mãe escolhera jardineiras de veludo elegantes e camisas. Este também seria o dia em que os gémeos de três meses iriam encontrar-se, de forma inesperada, com Michael Dukakis, o homem com aspirações presidenciais e bem-amado da comunidade grega, na igreja que a família frenquentava em Wauwatosa, no Wisconsin.

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Kate e Lindsay finalizam o secundário. O que sabem sobre política chega-lhes da mãe, Kathleen Anderson, directora de comuniação da campanha de Donald Trump no Utah

Apesar de só faltarem dois dias até às eleições primárias do Partido Democrata em Wisconsin, Toula Trifon, a mulher do padre, recorda que Dukakis pouco falou de política. Em vez disso, o governador de Massachusetts andou de um lado para o outro a conviver com os mais novos e os mais velhos da paróquia. Após o serviço religioso, durante o almoço, Toula vestiu-lhe um avental e colocou-lhe uma espátula na mão, deixando-o encarregado de servir o bacalhau assado com cebola.

Foi de avental que Dukakis foi fotografado pela Associated Press na Igreja Ortodoxa Grega dos Santos Constantino e Helena, com os braços por cima dos gémeos. Na fotografia, à volta deles, estavam aqueles que os iriam ver crescer ao longo dos anos e tornarem-se adultos, até aos dias de hoje, tendo 28 anos de idade. Nick gere o negócio de automóveis do pai e John é director financeiro na Dell. O padre Theodore, à esquerda de Nick na fotografia, seria quem os baptizaria e, mais tarde, quem oficializaria o casamento de John com Nina, em 2015.

Na altura, Dukakis enfrentava Jesse Jackson na corrida para a nomeação do Partido Democrata. A imagem de Dukakis ainda não tinha sido posta em causa por um vídeo de campanha do Partido Republicano que o mostrava num tanque de guerra, com um capacete pouco próprio, a sorrir e a apontar. E também ainda não tinha sido queimado na fogueira por um programa controverso de licenças concedidas a militares ou pela sua resposta fria a uma pergunta, num debate, sobre qual seria a sua posição sobre a pena de morte, caso a sua mulher fosse violada e assassinada.

Tudo isto iria abafar a mensagem de Dukakis sobre o poder do sonho americano ou como o seu pai, um imigrante grego, o alcançara.

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Nick e John: ambos os irmãos estão insatisfeitos com esta campanha para as presidenciais de 8 de Novembro

Chris, o pai de Nick e John, partilhava um início de história semelhante. Tinha chegado aos Estados Unidos vindo originalmente da Grécia com 52 dólares no bolso e uma pequena nota que explicava, como não sabia inglês, quem era e que ia para Milwaukee ter com a irmã. Assim que chegou ao Wisconsin, Poulos assentou e trabalhou arduamente. Conheceu Mary, com quem teve quatro filhos, e construiu o negócio de família, Chris’ Auto Service.

John teme que as oportunidades que garantiram tudo aquilo que o pai foi conquistando já não sejam uma realidade, tanto pelo rumo que vê a economia tomar como pelas queixas que ouve dos seus amigos, com muita dificuldade em arranjar emprego. Também se preocupa que essas oportunidades não existam para Christos, o seu filho de quase um ano.
 Ambos os irmãos estão insatisfeitos com esta campanha. “Parece que, até agora, conseguíamos colocar muitas questões na esperança de obter respostas”, diz John. “Mas muito do que tenho ouvido não passa de retórica.”

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post
 

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