Trump divide republicanos mas assusta Clinton com fantasma da abstenção

Doadores tradicionais do Partido Republicano estão a afastar-se do candidato e a pedir que outros façam o mesmo, mas a campanha de Clinton está preocupada com os efeitos deste discurso negativo na afluência às urnas.

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Donald Trump num discurso no estado do Ohio Bryan Woolston/Reuters

A menos de um mês das eleições para a Casa Branca, o alerta de pânico no Partido Republicano está no nível mais elevado desde o início da campanha. Alguns doadores importantes, que deram milhões à campanha de Mitt Romney em 2012, querem manter-se afastados do activo tóxico em que se tornou Donald Trump, principalmente na última semana, e procuram uma alternativa no candidato do Partido Libertário, Gary Johnson.

"Até para os mais leais há uma linha para além da qual se torna impossível descurar as falhas morais de um candidato. Essa linha foi claramente ultrapassada" no caso de Donald Trump, disse ao jornal The New York Times Bruce Kovner, um magnata que passou um cheque de quase três milhões de dólares ao Partido Republicano entre 2012 e o primeiro semestre deste ano.

"Ele é um demagogo perigoso sem qualificações para assumir as responsabilidades de um Presidente dos Estados Unidos", reforçou o milionário, cuja fortuna foi avaliada pela revista Forbes em mais de cinco mil milhões de dólares.

As ligações de Bruce Kovner ao homem que foi candidato do Partido Republicano à Casa Branca em 2012, Mitt Romney, mas também a figuras como o antigo vice-presidente Dick Cheney, deixam visíveis as duas principais divisões no interior do partido em 2016: de um lado, uma ala populista que nasceu com o movimento Tea Party há sete anos, mas que cresceu para um movimento muito maior e mais diversificado, unido por um forte sentimento contra tudo o que representam as figuras tradicionais do partido (os "políticos profissionais"); do outro, uma ala conservadora que defende a estabilidade em vez da ruptura e que tem tentado, sem sucesso, virar o partido na direcção de um discurso menos inflamado, para captar votos ao centro nas eleições gerais.

Outro dos milionários doadores do Partido Republicano que tem apelado a um distanciamento em relação a Donald Trump é David Humphreys, dono e presidente de uma empresa de materiais de construção no estado do Missouri.

"Em algum momento é preciso que as pessoas olhem para o espelho e reconheçam que simplesmente não é possível defender Trump junto dos seus filhos – especialmente junto das suas filhas", disse ao New York Times o empresário, que doou 2,5 milhões de dólares ao Partido Republicano desde 2012.

Mas os outros cheques que David Humphreys passou durante o mesmo tempo reforçam a ideia de que a divisão no Partido Republicano é muito mais de revolta contra os políticos profissionais de Washington e contra um tipo de discurso que consideram ser politicamente correcto, do que de políticas e visão de futuro para o país.

Se Donald Trump promete devolver aos norte-americanos os postos de trabalho perdidos com a saída de muitas fábricas do país, ainda que mantendo as condições precárias (Trump é contra a fixação de um salário mínimo, por exemplo), o empresário David Humphreys deu mais de cinco milhões de dólares a candidatos do Partido Republicano que defendem uma proposta de lei conhecida como "direito ao trabalho" no Missouri – se for aprovada, essa lei faz cair a obrigação de alguns trabalhadores da construção civil descontarem para um sindicato.

Mas, seja qual for o motivo da divisão, ela é evidente: na passada terça-feira, num intervalo de apenas cinco horas, Donald Trump disparou cinco mensagens no Twitter contra o topo da hierarquia do Partido Republicano, tendo como principais alvos os líderes que lhe retiraram o apoio por causa do vídeo gravado em 2005 e em que o actual candidato se gaba de apalpar e beijar mulheres sem o consentimento delas.

"Os republicanos desleais são muito mais difíceis do que a Hillary Desonesta. Eles atacam-me por todos os lados. Não sabem como ganhar – eu vou ensinar-lhes!"

No lado do Partido Democrata, a candidata Hillary Clinton tem optado por manter-se discreta, deixando que as atenções dos jornais e das televisões se concentrem nos comícios e nos tweets de Donald Trump. Mas esta é uma estratégia que também pode sair cara a Clinton no dia das eleições, segundo alguns elementos da campanha citados pelo site do jornal The Hill – a retórica inflamada da actual campanha, reforçada por Donald Trump depois do segundo debate, no passado fim-de-semana, pode afastar muitas pessoas das mesas de voto.

"É claro que há razões para nos preocuparmos, porque os eleitores podem querer distanciar-se da campanha, ou ficarem em casa se ela continuar a liderar por uma larga margem", disse um conselheiro de Hillary Clinton que o The Hill não identifica.

De acordo com os números mais recentes, Hillary Clinton tem uma vantagem de 6,7 pontos percentuais em relação a Donald Trump na média das sondagens nacionais – uma vantagem que desce um pouco, para 5,3 pontos, na média das sondagens com quatro candidatos (para além de Clinton e Trump, há também Gary Johnson, pelo Partido Libertário, e Jill Stein pelos Verdes).

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Acima de tudo, é o receio de uma forte abstenção que deixa a campanha de Clinton em guarda, como explica Grant Reeher, director do Instituto Campbell de Assuntos Públicos na Universidade de Syracuse: "Todas as campanhas, dos dois candidatos presidenciais para baixo [membros do Congresso] estão preocupados com isso, e com razão. O conflito que se vive actualmente pode fazer aumentar o nível de atenção e de interesse das pessoas, mas quando se começa a tentar perceber melhor esse entusiasmo, podemos encontrar pessoas que já nem querem preocupar-se. Os mais activistas vão votar, mas as pessoas que estão menos envolvidas são vulneráveis ao que se está a passar", considera o especialista.