Houve acordo para eliminar químico que reforça aquecimento global

Europa e EUA comprometem-se a reduzir em 10% até 2019 o uso de HFC, químicos usados em frigoríficos e aparelhos de ar-condicionado, para chegar a menos 85% até 2036.

John Kerry considera que este acordo é "monumental"
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John Kerry considera que este acordo é "monumental" AFP/CYRIL NDEGEYA

Mais de 190 países chegaram neste sábado a um acordo tido como “monumental” para começar já a eliminar progressivamente, nos países mais ricos, um tipo de gás usado nos frigoríficos e nos aparelhos de ar-condicionado que que tem um efeito de acelerador do aquecimento global: os hidrofluorcarbonetos, conhecidos pela sigla HFC.

Reunidos no Ruanda, representantes daqueles países, entre os quais Portugal, que se fez representar pela Agência Portuguesa do Ambiente, aceitaram fazer uma emenda ao Protocolo de Montreal, fixado em 1987 e que determinou a progressiva proibição de produtos que destroem o ozono na estratosfera – os clorofluorocarbonetos (CFC), destruindo a camada da atmosfera que protege o planeta dos raios ultravioleta que provoca cancro e outros problemas.

Os HFC começaram a ser usados em alternativa aos CFC, embora tenham efeitos nocivos como gases com efeito de estufa. Representam apenas 2% dos gases que fazem aumentar o aquecimento global emitidos pela actividade dos seres humanos na Terra – a esmagadora maioria é mesmo dióxido de carbono (CO2), que é o que é o que procura limitar o Acordo de Paris, que deverá entrar em vigor a 4 de Novembro. Mas se não forem controlados, em 2050 podem representar 12% dos cases com efeito de estufa, e isso seria dramático.

É que os HFC têm uma capacidade de capturar calor que pode ser 14.800 vezes superior à do CO2 e, ao contrário do dióxido de carbono, não há nenhuma fonte natural de HFC, são um produto feito pelo homem. A sua concentração na atmosfera explodiu na última década, porque o uso de ar condicionado disparou em economias em rápido desenvolvimento, como a China e a Índia. Estima-se que 1600 milhões novos aparelhos de ar condicionado entrem em funcionamento até 2050, avança a Reuters, reflectindo o crescimento da classe média na Ásia, na América Latina e em África.

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O uso de ar condicionado disparou em economias em rápido desenvolvimento, como a China e a Índia Manuel Roberto/PÚBLICO/Arquivo

É preciso encontrar novas opções que substituam os HFC, pois o novo acordo, que tem valor vinculativo, por ser uma emenda ao Tratado de Montreal, obriga os Estados Unidos e a União Europeia a começarem a reduzir o uso destes químicos em 10% até 2019 (tendo como referência os níveis de 2001-2013), para chegar a menos 85% até 2036.

Um segundo grupo de países, ditos em “via de desenvolvimento”, mas que inclui a China, o maior emissor mundial de HFC, e também os países africanos, comprometeu-se a iniciar a transição em 2024. Devem atingir uma redução de 10% em 2029, tendo como base as emissões de 2020-2022, e atingir menos 80% em 2045.

Um terceiro grupo de países, que inclui a Índia, o Paquistão, o Irão, o Iraque e os países do Golfo Pérsico, comprometeu-se a atingir estas metas de redução em 2032 e 2047.

A falta de pressa deste grupo, e em especial de Nova Deli, foi uma das polémicas desta conferência: “É uma vergonha que a Índia e um punhado de países tenham escolhido um programa mais lento”, denunciou a organização não-governamental Christian Aid, citada pela AFP.

Vitória para a Terra

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que ajudou a alcançar este acordo, considerou tratar-se de uma grande vitória para o planeta Terra. “É um monumental passo em frente, que atende às necessidades de cada nação mas que nos dará a oportunidade de reduzir o aquecimento global”, enfatizou. “Este é provavelmente o passo mais importante que podíamos ter dado para limitar o aquecimento global e para as gerações vindouras”, insistiu Kerry.

Dado o poder de retenção de calor dos HFC, os cientistas acreditam que o acordo de Kigali pode ter uma importante contribuição para desacelerar o aquecimento global. Talvez possa evitar uma subida de 0,5 graus da temperatura média global até 2100 – o que é muito, dado que os cientistas estimam que mais dois graus é quanto o planeta pode suportar até começarem a surgir efeitos realmente perigosos das alterações climáticas.

Espera-se que este acordo possa conduzir a uma redução dos gases com efeito de estufa equivalente a 70 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono – cerca de duas vezes a quantidade de emissões de carbono anais em todo o mundo.

Corrrigida a capacidade de captar calor dos HFC: pode ser 14.800 vezes superior à do CO2, e não apenas mil vezes superior