O "sofrimento invisível" de quem "ocupa" Lisboa

© Mário Cruz
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O fotógrafo Mário Cruz obteve inquestionável reconhecimento nacional e internacional após a obtenção do primeiro prémio da categoria "Contemporary Issues" na edição de 2016 do concurso World Press Photo, com o projecto "Talibes, Modern-day Slaves". No ano anterior, "Roof", projecto sobre os sem-abrigo que vivem debaixo de tectos devolutos na cidade de Lisboa, valeu ao fotógrafo o prémio "Magnum Under 30". Durante o desenvolvimento de "Roof", Mário conheceu uma realidade marcada por "condições desumanas, vidas frágeis e lutas solitárias". "São pessoas que refletem o desemprego, a falta de oportunidade e apoio social, e sobretudo um triste destino que teima em pairar sobre a sociedade portuguesa", descreve na sinopse do projecto. “Estas pessoas escondem-se da sociedade; há muitos amigos, familiares e colegas que não sabem da sua situação." "Chegar ao pé de uma pessoa cujo maior segredo é aquele e dizer que o que eu mais quero é contar o seu segredo não é fácil, requer uma ligação de confiança que nem todos estão dispostos a dar”, disse ao P3 em entrevista, em 2014. Partilhou também a história de um homem sem-abrigo de 63 anos que vive "numa moradia muito grande abandonada", pertencente à Câmara Municipal de Lisboa. “Sempre que quer entrar em casa tem que subir através de um escadote feito por um vizinho, uns quatro metros”, explica. Ao acompanhá-lo a sua casa, Mário deparou-se com “um cenário triste”. “É uma pessoa muito inteligente, ironicamente arruma carros para um dos restaurantes mais prestigiados de Lisboa”, lamenta. O que lhe disse o idoso marcou-o: “não me importo com os insectos nem com os ratos nem com a lama". "Simplesmente não quero é ter fome outra vez.” Segundo levantamento da Câmara Municipal de Lisboa, existem cerca de 2.800 prédios parcialmente devolutos e 1.870 totalmente devolutos; as pessoas que os habitam não pertencem aos grupos estatísticos de pessoas que vivem nas ruas "porque um tecto em fábricas abandonadas ou edifícios em ruinas" lhes serve de abrigo. Mário sublinha a ironia: "numa altura em que a internet cria protestos e diálogos sobre questões mundiais, o seu sofrimento é invisível." O projecto estará em exibição na segunda edição da exposição anual de fotojornalismo Sintra Press Photo, a partir do dia 22 de Outubro no MU.SA(Museu das Artes de Sintra). O dia será marcado pela presença dos três fotógrafos em exposição - Mário Cruz, Dominic Nahr e Phill Moore -, que estarão disponíveis para conversar com o público sobre os seus trabalhos e temas relacionados com o fotojornalismo actual. A não perder.

 

 

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