Editorial

A importância vital da cultura popular

A atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan obrigará a academia a alargar, e muito, a “fronteira” das suas escolhas para futuros premiáveis.

Por um daqueles acasos que a história não repetirá, o dia em que o Nobel da Literatura distinguiu Bob Dylan foi o mesmo em que morreu Dario Fo, que em 1997 recebera este mesmo prémio por entre exclamações de espanto. O próprio Fo se declarou “chocado” com a sua escolha pela academia, já que a literatura era só uma das suas disciplinas.

E Dylan? O que há na sua obra que possa ser catalogado como literatura? Aliás, o que é na verdade a literatura? A academia sueca parece, por algumas das suas escolhas, pouco preocupada em seguir um cânone rígido. E será tão divertido quanto desconcertante ver, a ilustrar os anúncios do Nobel da Literatura, um homem de guitarra eléctrica e a cantar.

É indiscutível que Bob Dylan é autor de uma obra ímpar na cultura norte-americana e universal. A revista LIFE, sintomaticamente, ao escolher em 1990 os “100 americanos mais importantes do século vinte” colocou Dylan logo nas primeiras páginas dessa sua edição especial, mesmo antes de Albert Einstein, Henry Ford ou Rockfeller. E mesmo os altos e baixos da sua carreira como músico e compositor nunca ofuscaram essa sua estrela primordial, que é a marca do seu génio. Não é por Tarântula (1965-66), um livro sem especial relevância, nem pelas recentes Crónicas autobiográficas que ele merece este prémio, mas sim pelo corpus da sua obra enquanto compositor de canções. Poeta? Sim, muitas das suas canções podem ser dissociadas da música e lidas como singela poesia, mantendo a genialidade que as gerou. Mas são na essência canções, e foi como canções que o mundo as recebeu e recebe ainda. A academia defende-se neste ponto, dizendo que já Homero ou Safo escreveram à data poesia para ser cantada, e, como ninguém lhes negará valor literário, também a Dylan este não deve ser negado. É um ponto de vista defensável, mas obrigará a academia a alargar, e muito, a “fronteira” das suas escolhas para futuros premiáveis. Não digam é que “continuamos a ler” Dylan, porque na verdade só o “lemos” ouvindo-o, no seu magnífico cancioneiro universal.

Sem sugerir que os escritores, pela musicalidade das suas palavras, possam candidatar-se aos Grammy, há que reconhecer que o Nobel atribuído a Bob Dylan tem o mérito de sublinhar a importância vital da chamada cultura popular na fixação de uma identidade transversal a todas as fronteiras. Por ironia, aos 19 anos, Dylan escreveu num poema pueril: “Nunca chegarei aos vinte e um...”. Só que chegou aos 75. E ganhou um Nobel.

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