Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

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Uma vénia a um mestre

Tive a sorte de, até agora, privar com o escritor por um ou dois pares de vezes, e afianço que o Gonçalo M. Tavares-homem é um espelho do Gonçalo M. Tavares-escritor

Fazia calor naquela tarde de Março, em 2011, quando dei a primeira oportunidade a Gonçalo M. Tavares. O livro chamava-se "Matteo Perdeu o Emprego" e não consegui largá-lo enquanto não o terminei, não obstante os compromissos que me gritavam do lado de fora do carro. Aquela catadupa de personagens filosoficamente tão carregadas e, em simultâneo, tão simples agarrou-me pelos colarinhos. Depressa tomei a minha decisão: aquilo era de tal maneira inovador, mesmo para um leitor ávido como eu, que ali estava o meu novo escritor predilecto. Hoje, cinco anos e meio depois, pouco mudou: li-lhe a obra inteira e a predilecção permanece; apesar de delirar com os textos de Valério Romão, Valter Hugo Mãe e Manuel Jorge Marmelo, entre outros, acredito que Gonçalo M. Tavares será o próximo português a ser laureado com o Nobel da Literatura.

É por isso que não fiquei espantado quando soube que Gonçalo M. Tavares estava na shortlist para arrebatar o prémio francês Prix Femina (ladeado pelo também mui amado Valério Romão), um dos galardões que são uma espécie de antecâmara do Nobel. O livro que lhe valeu a nomeação? O tal Matteo Perdeu o Emprego.

Muitos fogem da escrita de Gonçalo M. Tavares, enganados pela ideia segundo a qual este escritor é demasiado metafísico ou intelectual. Essa, para mim, é a sua maravilha. A sua escrita traz camadas, apropriadas a cada pessoa que as lê e descortina. Se, à primeira vista, as ideias podem parecer simplistas e, não raramente, belas, também é verdade que cada cena encerra em si uma riqueza filosófica sem precedentes. Há meia dúzia de dias, a investigadora brasileira Júlia Studart lançou O Dançarino Subtil, um compêndio que demonstra a profundidade paradoxal dos textos de Gonçalo M. Tavares: ora filosófico, ora de uma simplicidade perturbadora e acutilante. Esta investigação é, por certo, uma das primeiríssimas e mais importantes no estudo da obra do escritor que já conta com mais de 40 títulos. E é por sentir que nunca consigo entender os seus escritos na plenitude, por saber que ficará sempre novo conhecimento reservado para uma futura leitura, que este escritor tanto me atrai.

Tive a sorte de, até agora, privar com o escritor por um ou dois pares de vezes, e afianço que o Gonçalo M. Tavares-homem é um espelho do Gonçalo M. Tavares-escritor: a pessoa é como as personagens. Simples, de uma humildade e de uma humanidade quase esmagadoras, que quase nos faz esquecer que estamos perante um ícone da cultura portuguesa, não apenas contemporânea mas também vindoura. (Recordo, por exemplo, uma sessão na escola Escrita Criativa Online, em que o escritor, colocado perante uma disposição de cadeiras em forma de sala de aula, decidiu colocá-las em círculo. “Somos humanos, não somos gado”, soltou.) E, ao mesmo tempo, Gonçalo é denso, filósofo do bicho humano, um sabedor sedento por novo conhecimento. Dentro de cem anos, arrisco, Gonçalo M. Tavares será o novo Eça, o novo Saramago, o novo Pessoa. Todos em simultâneo, porventura.

“Porque optei por escrever? Não sei. Ou talvez saiba:

Entre a possibilidade de acertar muito, existente

Na matemática, e a possibilidade de errar muito,

Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar

Mais ou menos sem meta) optei instintivamente Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.”

1 (Relógio d’Água), Gonçalo M. Tavares