Leonard Cohen está preparado, mas ainda há trabalho a fazer

A uma semana de edição de You Want It Darker, falou da plenitude espiritual que atingiu e das dificuldades impostas pela fragilidade física. À New Yorker, o cantor de 82 anos confessa estar preparado para morrer. Mas, antes disso, ainda tem livros, canções e letras para terminar.

Leonard Cohen actuou quatro vezes em Portugal desde o regresso aos palcos em 2008, a última delas na Meo Arena
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Leonard Cohen actuou quatro vezes em Portugal desde o regresso aos palcos em 2008, a última delas na Meo Arena Nuno Ferreira Santos

I’m ready, my Lord”, canta Leonard Cohen na sua voz rouca e envelhecida de 82 anos, impositiva como sempre, em You want it darker, tema-título do álbum que editará dia 21 de Outubro. É quase certo que não o apresentará em digressão. Está demasiado velho e demasiado cansado fisicamente para o fazer, depois de ter dado mais quase 400 concertos entre 2008 – o ano do regresso aos palcos – e 2013, o ano em que subiu a um, pela última vez, em Auckland, Nova Zelândia. Pelo meio, tivemos o privilégio de o ver quatro vezes em Portugal. Em Agosto, correu mundo a carta de despedida que enviou a Marianne Ihlen, sua musa e amante na ilha grega de Hydra, nos anos 1960, falecida a 28 Julho. “Bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei em breve”, escreveu então.

Numa longa entrevista-reportagem publicada na New Yorker, assinada por David Remnick e que serviu de rastilho para a crónica que Miguel Esteves Cardoso escreveu no Público desta quarta-feira, Cohen diz-se “confinado aos quartéis”, ou seja, ao apartamento discreto que habita em Mid-Wilshire, Los Angeles, e às suas redondezas. A sua saúde frágil não lhe permitirá arriscar novas digressões como as percorridas até 2013, mas tal não significa que o cantor, compositor e poeta esteja a preparar-se para a reforma após a edição de You Want It Darker. “De certa forma, este predicamento em particular é preenchido de muito menos distracções que outros períodos da minha vida e, na verdade, permite-me trabalhar com um pouco mais de concentração e continuidade do que quando tinha obrigação de ganhar a vida, de ser marido e de ser pai”, explicou. “A única coisa que atenua uma produção plena é o estado do meu corpo”.

Na reportagem, Cohen é descrito com um homem hoje muito magro, mas ainda elegante, a cabeça coberta de cabelos brancos e grisalhos da qual sobressaem uns olhos pretos penetrantes – o fato de corte impecável assegura que Cohen, aos 82 anos, continua o Cohen que conhecemos há cinco décadas. A entrevista percorre toda a carreira musical, desde os tempos em que tinha por certo que seria escritor à descoberta de um ganha-pão na música. Passa por Montreal, onde cresceu, pelos tempos em Nova Iorque e em Hydra. Conta o seu terror ao palco nos primeiros anos, a sua “descoberta” por John Hammond, o mítico produtor que antes assinara Bob Dylan, e chama o próprio Dylan a comentar a música de Cohen, o que aquele faz com detalhe e profundidade – “ele é um músico muito mais astuto do que se pensa”, dirá, depois de comparar Cohen, com propriedade, a Irving Berlin.

O centro da entrevista é, porém, e inevitavelmente, o presente. Atravessa-a a demanda de uma vida, a procura constante por iluminação espiritual, onde quer que ela se encontre – “Tudo, catolicismo romano, budismo, LSD, sou a favor de tudo o que funcione”, cita-o a New Yorker. O avançar da idade parece ter agudizado essa procura – You Want It Darker é descrito como um álbum obcecado com a ideia de Deus e de mortalidade. Ao mesmo tempo, a consciência da velhice atenuou a angústia. Cohen manteve sempre próximas as suas raízes judaicas, Cohen já teve e já incorporou a sua experiência Zen, auto-exilado durante anos num mosteiro sob a liderança de um controverso mestre japonês, Roshi (é discutível que tenha retirado daí revelações espirituais, diz, mas aprendeu bastante sobre disciplina e resistência). Cohen lê hoje com dedicação o Zohar, o livro fundador da Cabala, e a Bíblia Hebraica, os evangelhos apócrifos do Cristianismo ou ensaios sobre filosofia hindu.

O passado próximo, o das digressões que reiniciou em 2008 após ter descoberto, saído do mosteiro budista, que a sua contabilista de 17 anos, Kelley Lynch, lhe deixara a conta bancária vazia, é recordado como um período em que se sentiu plenamente realizado, como se a sua carreira tivesse, inesperadamente, atingido um círculo completo. Ainda assim, tal não representou o fim. Assumir isso ser-lhe-ia impossível. Antes, com dois filhos e a sua mãe para cuidar, além de ter de cuidar de si próprio, parar não era opção. Agora, criar tornou-se “um hábito”. Um hábito que, aos 82 anos, ganha nova urgência.

“Há o elemento tempo, que é poderoso”, nota Cohen. “Acabei algumas coisas. Não sei quantas mais serei capaz, porque nesta etapa específica sinto uma fadiga extrema… Há momentos em que tenho simplesmente de me deitar”. Afectam-no a compressão vertebral que o obriga a repouso constante, afecta-o a dificuldade em tocar a guitarra – mas ainda tem os teclados para continuar a explorar. Espiritualmente, diz-se profundamente agradecido por se sentir em paz. Fisicamente, vive uma luta para conseguir agir de acordo com a sua natureza, que sempre lhe disse que aquilo a que deita mãos tem de ser terminado. E ele tem um livro de poemas por concluir, tem canções e letras para completar e quer “dar conta do trabalho”.

O próximo álbum está a chegar. Foi produzido pelo filho de Cohen, Adam Cohen, de 44 anos. You want it darker, a canção já revelada, conta com a participação de Gideon Zelermyer, cantor da sinagoga de Montreal, e do Coro da Sinagoga Shaar Hashomayim da mesma cidade. Nela, Cohen canta naquele seu canto falado tardio estes versos: “I struggled with some demons / They were middle class and tame / I didn’t know I had permission to murder and to maim / You want it darker / I’m ready, my Lord”. No seu apartamento em Mid-Wilshire, disse a David Remnick: “Estou preparado para morrer. Espero que não seja muito desconfortável”. Não o preocupa o que virá depois. Por duas razões, intuímos. Porque não ambiciona ter acesso a conhecimento que, “provavelmente, não seria capaz de processar mesmo que me fosse fornecido”. E porque, na verdade, ainda há trabalho por fazer e, este, Cohen gostaria de o terminar a tempo.