Porto 2001 - debater o ano em que o tempo acelerou na cidade

Manuela de Melo coordena ciclo de conferências que começa esta terça-feira no Museu Nacional Soares dos Reis sobre a Capital Europeia da Cultura.

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Mário Marques
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Manuela de Melo Fernando Veludo/NFactos

Serão 15 anos tempo suficiente, distanciamento suficiente, para se avaliar o papel que a Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura (CEC) teve naquilo que a cidade é hoje? Manuela de Melo acha que sim, e por isso aceitou o desafio que lhe foi lançado pelos Amigos do Museu Nacional Soares dos Reis (MNSR) de comissariar um ciclo de conferências para abordar este tema.

“Já passou tempo suficiente para se poder fazer uma reflexão sobre tudo o que se passou com e depois da Porto 2001, pondo agora de lado as polémicas circunstanciais que ensombraram toda a discussão sobre coisas concretas”, diz ao PÚBLICO a ex-vereadora da Cultura da Câmara Municipal do Porto, que foi a coordenadora-geral da programação da CEC, e que agora reuniu perto de três dezenas de figuras que integraram a sua equipa ou representam instituições e sectores de actividades que estiveram ligados ao evento.

Ao longo do próximo meio ano, ao ritmo de uma sessão por mês, o MNSR vai ser palco de uma série de debates sobre a Porto 2001, olhado à distância de década e meia. A sessão inaugural vai ter como mote Encontro com a cidade, e reúne três membros da equipa original da Porto 2001: Álvaro Domingues, Nuno Grande e Paulo Sarmento e Cunha.

Este último, actual director-geral da Casa da Música – o equipamento que, de algum modo, ficou como o mais forte ícone material da CEC –, vai dar testemunho “do estado de espírito da equipa que abraçou o projecto”. “As pessoas já não se recordam das várias valências e da ambição que marcaram esta experiência”, diz o engenheiro civil, que entrou, em 1999, para a administração de Teresa Lago, e ficou até Junho de 2002, altura da prestação de contas. De resto, nota Manuela de Melo, com este ciclo “queremos não apenas revisitar a história de um ano de programação e actividades, mas dos três anos e meio da vida da Sociedade Porto 2001”.

Álvaro Domingues vai centrar-se “no que é o tempo das coisas”, que é algo diferente do tempo real. “Na altura, vivíamos num clima geral de grande ansiedade, de exigência de resultados imediatos”, lembra o geógrafo e professor da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Mas, entretanto, iniciativas extraordinárias como uma CEC ou uma Expo “têm efeitos diferidos no tempo”, e, no caso do Porto, “o tempo acelerou”.

“Com a Porto 2001, vivemos uma espécie de dobra no tempo e no ritmo de evolução da cidade”, diz Domingues, citando, como exemplo, a diferença de paradigmas da acção do CRUARB (Comissariado para a Renovação Urbana da Área de Ribeira/Barredo) e daquilo que acontece actualmente no centro histórico e na Baixa: “Nessa altura, o investimento fazia-se no realojamento das pessoas nos seus lugares históricos; agora, fazem-se hotéis…”, diz o geógrafo – que abandonou a equipa da Porto 2001 em divergências com Teresa Lago –, assinalando o contraste entre a situação da cidade no final do século passado e a turistificação da época pós-Ryanair.

Nuno Grande, arquitecto, professor e curador, que integrou a equipa de programação na área da Arquitectura e Cidade, vai mostrar como foi preocupação da equipa “cruzar a programação com o processo de transformação urbana”. Cita, a propósito, os encontros realizados em cafés da Baixa com os arquitectos responsáveis pelas quatro áreas de intervenção no centro urbano, a edição do livro O Regresso à Baixa, com todos esses projectos, e ainda a abertura da sede portuense da Caixa Geral de Depósitos, nos Aliados, como espaço de artes, com uma exposição do segundo projecto que Álvaro Siza então realizou para a Avenida da Ponte.

Mas Nuno Grande espera que este ciclo de conferências “não se torne numa espécie de Amigos de Alex da Porto 2001”, antes uma oportunidade de debate sobre o presente e o futuro da cidade. E nota que uma das coisas mais positivas da experiência da CEC foi “ter sido possível trabalhar em rede para um mesmo desígnio". "Nunca mais o Porto conseguiu essa concentração de esforços, e nos últimos 15 anos tem faltado isso”, lamenta o co-responsável pelo "pavilhão" de Portugal na Bienal de Arquitectura de Veneza.

Manuela de Melo quer também que a experiência da Porto 2001 seja efectivamente confrontada com o tempo actual, naquilo que foram os seus sucessos e as suas insuficiências. “Queremos discutir se ficou da CEC uma ideia clara de construção de um futuro partilhado”, diz a ex-programadora, apelando à participação crítica do público que acorrer ao auditório do MNSR.

 

Porto 2001 – 15 anos depois

Comissária: Manuela de Melo

Museu Nacional Soares dos Reis*

 

Terça-feira (11 de Outubro)

Encontro com a cidade

Com Álvaro Domingues, Nuno Grande e Paulo Sarmento e Cunha

15 de Novembro

Todas as músicas, todos os públicos

Com Fausto Neves, José Madureira Pinto e Pedro Guedes

13 de Dezembro

Odisseia nas Imagens – Do real ao virtual

Com Artur Pimenta Alves, Jorge Campos e Rodrigo Areias

10 de Janeiro

Envolver e animar

Com João Teixeira Lopes, Júlio Moreira e Pedro Aparício

14 de Fevereiro

Artes dos palcos

Com Ana Cristina Vicente, António Capelo e José Luís Ferreira

14 de Março

Artes plásticas e fotografia

Com João Fernandes, Miguel von Hafe Perez e Teresa Siza

11 de Abril

Cartografias e ligações

Com Manuel Alberto Valente, Manuel Sobrinho Simões e Susana Medina

16 de Maio (Museu de Serralves)

Lembrar Paulo Cunha e Silva

Com Fernando d’Oliveira Neves, Manuel Henriques e representantes da Fundação de Serralves, da Câmara Municipal do Porto e da Universidade do Porto.

* Sessões às 21h30

sandrade@publico.pt