“A maior vitória diplomática desde Timor-Leste”

Augusto Santos Silva revela, em entrevista ao PÚBLICO, os “momentos-chave” da campanha para a eleição de António Guterres. E deixa críticas ao comportamento “incorrecto” de membros da Comissão Europeia.

Santos Silva acompanhou Guterres no Palácio das Necessidades, em Lisboa
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Santos Silva acompanhou Guterres no Palácio das Necessidades, em Lisboa Enric Vives-Rubio

Augusto Santos Silva tem bem presentes na memória os “momentos-chave” da candidatura, vitoriosa esta quinta-feira, por aclamação no Conselho de Segurança, de António Guterres à liderança da ONU. E o mais recente é também o mais improvável. Este mês de Outubro “era muito favorável”, na análise que fazia a pequena equipa de dez pessoas que lidava com a candidatura no Palácio das Necessidades. “Havia uma janela de oportunidade, porque a Rússia assumia a presidência do Conselho de Segurança. A Rússia, que era quem mais insistia na hipótese de um secretário-geral do Leste, ficava numa posição mais confortável para aceitar António Guterres”, interpreta Santos Silva.

Terá sido essa posição institucional da Rússia, país ao qual coube anunciar a decisão, esta quinta-feira, que abriu as portas a uma solução que já era esperada pela diplomacia portuguesa há algum tempo. No dia 17 de Julho, Augusto Santos Silva reuniu-se em Moscovo com o seu homólogo russo, Serguei Lavrov, e ouviu uma posição clara, e favorável, às pretensões de Lisboa. “O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia explicou-me o que a Rússia iria fazer. E a Rússia sempre fez o que disse que ia fazer”, conta Augusto Santos Silva. Em duas frases, lembra o ministro português, o chefe da diplomacia russa mostrou que não se opunha a Guterres: “Nós preferimos uma candidatura do Leste da Europa. António Guterres será um bom secretário-geral da ONU.”

Uma candidatura vitoriosa, nestas circunstâncias, não pode contar apenas com os apoios formais. Às vezes, um apoio em segundo grau – um “second best” – pode ser tão ou mais valioso. Santos Silva recorda, por exemplo, que a visita de António Guterres a Wellington, capital da Nova Zelândia, foi também muito importante por essa razão. A Nova Zelândia tinha a sua própria candidata ao cargo, mas a recepção que dispensou a Guterres mostrou que, se por alguma razão, a sua própria candidatura não vingasse, Portugal passaria a contar com um aliado. O mesmo se passou, recorda Santos Silva, com o bloco dos países sul-americanos.

Aliás, essa estratégia de manter Guterres entre as hipóteses do maior número possível de países começou a dar frutos logo nas primeiras visitas do candidato, que terá dado, desde Janeiro, “várias voltas ao mundo”. China e Rússia, dois dos cinco países com direito de veto no Conselho de Segurança, deram sinais positivos. O resto do “P5” era composto por aliados de Portugal. “Sabíamos que podíamos contar com a França e não teríamos a hostilidade dos EUA.” Havia, de resto, “um grande apoio entre os países não-permanentes do Conselho de Segurança”.

A estratégia seguida pela diplomacia portuguesa é resumida numa frase por Santos Silva: “Criar um clima para que as potências possam tomar uma decisão com conforto.” Aliás, é isso que explica, para Santos Silva, a “rapidez do desenlace”. Numa altura em que cresce o tom do conflito entre EUA e Rússia, a eleição de Guterres permite aliviar a tensão. “Todos percebem que Guterres não é uma marioneta de ninguém, e é capaz de criar pontes de diálogo”, afirma Santos Silva. E foi necessário alguma negociação especial, alguma promessa? “A candidatura de António Guterres não está presa por nenhum compromisso”, garante o ministro.

Essa é uma das vantagens de ter sido uma candidatura baseada na “lisura” e na “transparência”, defende Santos Silva. Quando, em Dezembro, poucos dias depois de tomar posse, Santos Silva recebeu a carta de convocatória para as eleições na ONU, já tinha uma ideia clara sobre quem seria o candidato português. “Fui um dos muitos no PS que se bateram para que António Guterres fosse candidato à Presidência da República. Sabia desde essa altura que Guterres recusou essa possibilidade porque estava disponível para se candidatar a secretário-geral da ONU”, lembra. Ainda em Dezembro, depois de um jantar com Guterres, Santos Silva reuniu um conjunto de “embaixadores e ex-ministros dos Negócios Estrangeiros” e juntos ponderaram, “com António Guterres”, as hipóteses da candidatura. “O primeiro-ministro fez o mesmo exercício”, acrescenta Santos Silva. A conclusão a que chegaram foi que Guterres cumpria “todos os critérios” requeridos pela ONU. Havia, é claro, dois obstáculos não exactamente formais: “Tinha contra si a pressão de não vir da Europa do Leste, nem ser uma mulher.”

Foi então que se iniciou o processo diplomático. “Comunicámos a candidatura a todas as capitais dos 15 países-membros do Conselho de Segurança. E também aos nossos parceiros da União Europeia e da CPLP.” Também internamente houve um trabalho prévio importante: “Do ponto de vista político era essencial ter a maior abrangência possível. Por isso recolhemos o apoio do Presidente da República, que era Cavaco Silva, e do Presidente eleito [Marcelo Rebelo de Sousa] e reunimos com todos os partidos.”

Montou-se então uma “estrutura de campanha minimalista”, conta o ministro. Um pólo em Nova Iorque, na missão permanente de Portugal da ONU, liderada pelo “grande embaixador Álvaro Mendonça e Moura”, que foi reforçada para o efeito pelo MNE. Em Lisboa, nas Necessidades, a operação era dirigida por Santos Silva, e pela secretária de Estado dos Assuntos Europeus, Margarida Marques. O coordenador da campanha foi um diplomata que conhece bem António Guterres: Freitas Ferraz, que fora o seu assessor diplomático em São Bento, e agora dirige o Instituto Diplomático, ficou encarregado da vertente “técnica” da candidatura. Liderou uma equipa de “cerca de dez pessoas”, reforçada pontualmente por elementos do gabinete do primeiro-ministro, como o assessor de imprensa David Damião (que já fora também assessor de Guterres) e por membros da Casa Civil de Marcelo Rebelo de Sousa.

A “frente avançada” desta operação foi montada nas embaixadas portuguesas nas capitais dos países-membros do Conselho de Segurança. Outros postos tiveram um papel importante, como o Brasil ou alguns países árabes. “Isto significa, na prática, mobilizar toda a rede diplomática”, resume Santos Silva. Em qualquer viagem, ou reunião, do Presidente, do primeiro-ministro ou do ministro dos Negócios Estrangeiros, “havia um ponto na agenda que era a candidatura portuguesa à ONU”.

“A candidatura de Guterres era a única candidatura global”, defende Santos Silva, o que muito se baseia numa rede diplomática “que cobre os quatro cantos do mundo” e tem ao seu serviço “diplomatas com muita experiência e que conhecem as Nações Unidas como as palmas das suas mãos”, elogia o ministro. “[A certa altura], quase atenuámos a qualidade de português de António Guterres…”, ironiza.

Mas o segredo é outro. “É mais fácil vender um diamante do que uma pedra de granito”, formulação que recorda a primeira audição pública de Guterres como o primeiro dos “momentos-chave” desta eleição. “O arraso foi tal, para usar uma expressão jornalística, sobretudo o improviso, que aí percebemos que Guterres tinha não só hipóteses, como muitas hipóteses de ganhar.”

E nem a chegada de Kristalina Georgieva, comissária búlgara da União Europeia, colocou qualquer entrave, garante Santos Silva. “A última candidatura era tão intempestiva, tão contra a corrente, que não nos assustou.” Santos Silva dirige uma crítica à Comissão Europeia: “O nível de envolvimento nessa candidatura de altos funcionários da Comissão Europeia foi incorrecto. Era exigida uma atitude de imparcialidade total, porque havia vários candidatos de países da União.” Por isso, o ministro português tem uma expectativa: “[Que] todos tiremos lições disto.” E sublinha: “António Guterres e Portugal fizeram uma campanha positiva, sempre elogiámos os adversários.”

Para Augusto Santos Silva, esta eleição de António Guterres é um feito “que só tem equivalente na independência de Timor-Leste”. Estas “grandes vitórias” da diplomacia portuguesa têm em comum “duas palavras”, ironiza o ministro: “António e Guterres.”