Thomas Mukoya/Reuters
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Megafone

Guterres só venceu porque o processo foi democrático e transparente

Temos a demonstração de como um processo mais transparente e democrático pode levar a melhores decisões

Dos anteriores processos de eleição do secretário-geral da ONU pouco ou nada nos chegava. Clara que não havia nenhum português na corrida para os media nacionais darem destaque e construírem infindáveis peças informativas sobre o assunto. No entanto, consta que este processo de eleição foi, até ao momento, um dos mais democráticos e transparentes. Ou seja, cada candidato teve de demonstrar e manifestar a sua opinião sobre determinados assuntos, tal como concretizar ações a tomar. Não se tratou apenas de negociações nos bastidores do concelho de segurança. Os candidatos tiverem de brilhar por si e reunir apoios, tanto dos representantes dos países-membros da ONU como da opinião pública em geral.

Temos a demonstração de como um processo mais transparente e democrático pode levar a melhores decisões. Não sabemos se Guterres será bom neste novo cargo, mas sabemos que foi o melhor e aquele que demonstrou ser mais capaz e adequado para o cargo durante o processo de candidatura. Sem um processo público e transparente Guterres dificilmente teria ganho.

No caso das escolhas políticas e partidárias, será que os processos de escolha estão pensados para fazer emergir os mais capazes e adequados para os vários cargos de responsabilidade política? A questão das primárias, da reforma dos círculos eleitorais, dos referendos deliberativos e até das democracias diretas ainda são miragens em Portugal, apenas com algumas manifestações efémeras que nos deixam desconfiados quanto aos seus reais intuitos. Independentemente das famílias políticas ou influências ideológicas, há que repensar os processos. Na política vive-se constantemente da perceção da opinião pública, o que não é sinónimo de realidade.

Por outro lado, as soluções políticas, muitas vezes, emanam de decisões obscuras que não compreendemos, baseadas também em perceções igualmente duvidosas. Podíamos começar por aí, por aumentar a transparência e utilizar ferramentas para poder escolher os melhores, simples e baseadas em dados concretos. Soluções não faltam. Escasseia apenas vontade!

Se corresse mal, pelo menos, só nos poderíamos culpar a nós mesmos. Vamos “guterrizar” os processos de decisão e escolha política? Quantos outros processos políticos tendem a secundarizar o mérito em prol da suposta perceção pública e interesses ocultos de determinadas minorias poderosas? Será assim enquanto a maioria o permitir e impedir que os “Guterres” possam ganhar e ascender a cargos de poder em nome de todos. Mas sem “cheques em branco” e com possibilidade de intervenção e interação da cidadania com os eleitos.