Opinião

Tão bons lá fora, tão maus cá dentro

A dimensão do país, a sua equidistância e o temperamento português com certeza ajudaram à concretização deste improvável feito.

A eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU é, sem dúvida, um feito extraordinário, tendo em conta tudo aquilo que ele tinha contra si. Não vinha do sítio certo (nasceu no Ocidente, e dizia-se que esta era a hora de uma figura de Leste), não tinha o sexo certo (é homem, e dizia-se que tinha chegado a vez de uma mulher) e não tinha o discurso certo (adoptou sempre uma postura humanista e pró-refugiados que se dizia poder afugentar a Rússia e a China). Ainda por cima, Guterres teve de enfrentar uma adversária de última hora, que muitas consideravam favorita. Mas de cristalino Kristalina só tinha o nome, e acabou por ser fragorosamente derrotada na votação de quarta-feira, no que foi uma vitória da transparência, como Marcelo sublinhou, e bem.

Custa-me olhar para estas votações como se estivéssemos a assistir a um jogo da selecção nacional, mas o patriotismo está inscrito nos nossos genes e acaba por ser mais ou menos inevitável sentir algum orgulho por um português atingir o mais elevado patamar na hierarquia das Nações Unidas – uma instituição que, por muitos defeitos que tenha, impede há mais de 70 anos a eclosão de um novo conflito mundial. Guterres tem os princípios, a cultura, a experiência e a capacidade de negociação necessárias para o cargo. Imagino que continue a não ter, como nunca teve, a capacidade de decisão e a firmeza necessária para dar murros na mesa. Mas o secretário-geral da ONU também não tem uma mesa onde dar murros. A mesa que conta é a do Conselho de Segurança, e aí António Guterres não tem assento.

A competência técnica e a sua personalidade redonda terão sido essenciais para a vitória, como, de certa forma, já havia acontecido na Europa com Durão Barroso. Não há outro país no mundo inteiro, seja grande ou pequeno, que tenha tido dois cidadãos seus a ocupar os lugares de presidente da Comissão Europeia e de secretário-geral da ONU – o cargo mais elevado da política europeia e o cargo mais elevado da diplomacia mundial. A dimensão do país, a sua equidistância e o temperamento português com certeza ajudaram à concretização deste improvável feito. Com uma dobradinha de tamanho calibre, Portugal mais parece a Suíça das relações internacionais.

Contudo, ao mesmo tempo que a minha costela patriótica sente alegria por António Guterres, e lhe deseja a melhor sorte do mundo, a minha costela realista não consegue deixar de sentir uma enorme melancolia por ver a disparidade entre os feitos que estes dois homens alcançaram internacionalmente e as limitações que revelaram enquanto primeiros-ministros de Portugal. Barroso e Guterres não são diferentes do canalizador português do Luxemburgo ou da porteira de Paris: a qualidade que lhes foi reconhecida no estrangeiro nunca foi revelada cá dentro.

Não é possível olhar para isto sem apreensão. É absurdo que quem tem talento para chegar a presidente da Comissão Europeia ou secretário-geral da ONU não tenha qualquer talento para desempenhar o cargo de primeiro-ministro de Portugal – e tanto Guterres como Durão falharam redondamente em São Bento, cada um à sua maneira. Ora, o mal não pode estar apenas nestas pessoas. O mal tem de estar nas insuficiências estruturais do país e na tremenda inércia das suas instituições, que secam os melhores. É por isso que ao mesmo tempo que fico feliz por Guterres cresce a minha desilusão em relação a Portugal. A sua vitória pessoal é um espelho da nossa derrota colectiva.