Uma Carmen liberta dos clichés do folclore

Com a acção transportada para Ceuta, a encenação da Carmen de Calixto Bieito que pode ser vista a partir desta quinta-feira no Teatro de São Carlos troca a visão romântica pela crueza da violência doméstica.

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O cinema foi uma inspiração importante para esta Carmen, tal como é comum nas encenações de Calixto Bieito Rui Gaudêncio
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A Carmen, de Georges Bizet, inaugura esta quinta-feira à noite, às 20h, a temporada lírica do Teatro Nacional de São Carlos, dando a conhecer em Lisboa a encenação de Calixto Bieito através de uma co-produção da English Opera House e da Ópera da Noruega, com direcção musical de Rory Macdonald. O catalão Calixto Bieito, a quem já chamaram “o Tarantino da ópera” e cujos trabalhos foram várias vezes apelidados de “eurotrash”, tem no seu curriculum várias produções controversas e provocatórias, mas a sua visão da Carmen, apesar da crueza de algumas cenas de sexo e violência, tem sido em geral bem aceite.

Dezassete anos depois da estreia, que ocorreu em 1999, a ópera continua a ser reposta em vários teatros do mundo, talvez porque “está muito perto das intenções da obra original”, na opinião de Joan Anton Rechi, o encenador responsável pela remontagem no São Carlos e membro da equipa desde o início. Em Lisboa, o papel titular será interpretado pela jovem meio-soprano lituana Justina Gringyte, que substitui a anteriormente anunciada Katarina Bradic que se lesionou durante os ensaios. O restanto elenco inclui ainda Lukhanyo Moyake (D. José), Nicholas Brownlee (Escamillo), Sarah-Jane Brandon (Micaela) e Keel Watson (Zuniga), entre outros.

“Antes da produção de 1999, fizemos uma viagem pelo Sul da Andaluzia aos sítios onde acontece a acção, tanto na novela de Merimée como na ópera, e fomos depois a Tânger e a Ceuta, os locais que nos suscitaram as principais ideias para colocar a obra em cena”, contou ao PÚBLICO Joan Rechi. “Queríamos fazer uma Carmen muito espanhola, mas sem cair no folclore. Na maior parte das encenações o que se vê é uma espécie de Disneylândia, com a Carmen vestida com o traje de flamenco. As pessoas vestem-se assim para a feira de Sevilha, não para irem trabalhar todos os dias!”

Foi então que em Tânger, Ceuta e Melilla se aperceberam de que “esse universo de fronteira, muito à flor-da-pele e no limite, com gente a viver em carros como nómadas modernos e muitos contrabandistas” podia servir de enquadramento à Carmen. “Tínhamos também os soldados pois é em Ceuta que está a Legião Espanhola”, acrescenta. “Quando visitamos esses sítios, vemos coisas que parecem dos anos 70 ou 80 e estão passadas de moda, mas de repente alguém tira um iPhone do bolso e damo-nos conta que, afinal, estamos na época actual.”

O objectivo não era apenas afastarem-se dos clichés, mas também a aproximação à obra original. “Bizet era um grande admirador da novela de Mérimée, que é muito mais crua e dura do que a ópera. Pelas suas cartas percebemos que não podia ir mais longe devido aos constrangimentos morais e sociais do século XIX.” O director de cena recorda que apenas uns anos antes, em La Cenerentola,  Rossini teve de trocar o sapato do conto original por uma pulseira porque as mulheres não podiam mostrar o pé em cena.

“Imagine-se, alguns anos depois, o que significava ter em palco uma mulher livre como Carmen, que seguia as suas emoções e não vivia de acordo com nenhuma regra. Foi um autêntico escândalo.” O cinema foi também uma inspiração importante, como de resto é comum, nas produções de Bieito, principalmente o filme Los Tarantos [1963], sobre os ciganos que viviam em barracas em Barcelona, e O Tempo dos Ciganos, de Kusturica. “Queríamos reflectir todo este sub-mundo, onde, como dizia Calixto, todos são ‘cabeças de turco’ que não têm muitas possibilidades de sobreviver.”

Para Joan Rechi, umas das características marcantes de Bieito “é a aposta na energia das personagens e num trabalho muito físico.” Reconhece que o encenador catalão é radical, mas acrescenta que muitas vezes apenas mostra o que já lá está sob uma nova luz.

“As pessoas escandalizam-se demasiado por tudo e nem sempre prestam atenção ao conteúdo das obras. Por exemplo o D. Giovanni, de Mozart, começa com uma violação e um assassinato, é uma história de sexo e violência. Na época em que foi estreada a Madama Butterfly, o facto de um marinheiro norte-americano casar com uma rapariga japonesa de 15 anos era uma coisa, hoje é outra, pois seria ilegal.”  

Rechi acha também estranho que o público se escandalize com o que vê na ópera, mas não com o que passa na televisão, no cinema e na publicidade. “Nesta ópera há um nu, mas na publicidade há muitos e ninguém liga.” Por outro lado, no teatro é frequente modernizar peças criadas há vários séculos sem que isso cause perplexidade. “Porque é que não podemos tomar certas opções na ópera se os libretos tratam desses temas? A grandeza de óperas como a Carmen é que, mais de um século depois, nos falam de coisas que continuam a acontecer e a inquietar-nos.”