Entrevista

Chatwin nunca "saiu do armário"

Salman Rushdie recorda o autor de Na Patagónia.

Foto
Bruce Chatwin Ulf Andersen

Falta autenticidade na obra de Bruce Chatwin?

Bruce era um homem brilhante. Sabia tudo sobre tudo. E era também um incrível coleccionador de pessoas. No seu pequeno molesquine tinha os números de telefone de praticamente todas as pessoas do mundo.

Como um jornalista.

Se quiséssemos o número secreto do papa, estava lá. Se quiséssemos o número privado da rainha, estava lá. Gostava de coleccionar pessoas. O problema dele foi que nunca “saiu do armário”. Sempre suprimiu o conhecimento da sua homossexualidade. E separava a sua vida em grupos diferentes, que nunca se misturavam. Havia os amigos literários, como eu, que nunca se encontravam com os amigos gays. Eu não sabia quem eles eram. E estes dois grupos nunca se encontravam com outro que ele tinha que era o dos místicos, um assunto que lhe interessava. O mais estranho é que, quando Bruce morreu, estavam todos no seu funeral. Olhavam uns para os outros pela primeira vez e pensavam: o que estão estes aqui a fazer?

Foi durante esse funeral que soube que tinha sido decretada a fatwa contra si, por Khomeini.

Sim, foi um dia realmente estranho.

Todos os amigos sabiam a causa da morte de Bruce Chatwin?

Quando ele contraiu sida, recusou-se a admitir. Nunca o ouvi dizer o nome da doença. Sempre fingiu que era outra coisa. Contava esta história de que tinha estado numa região remota da China, onde tinha inalado um fundo perigoso.

E acreditava realmente nisso?

Era o que nos dizia. E nós, em vez de dizermos “tens sida”, tínhamos de falar no fungo chinês. O ano da sida foi 1982, ou 83. Bruce ficou doente dois anos depois disso. Foi portanto no primeiro momento da colossal epidemia, em que toda a gente estava a morrer. Eu penso que ele não conseguia admitir que tinha aquela coisa de que todos estavam a morrer.

Era demasiado aristocrata para isso?

 Sim, e porque não conseguia admitir que aquilo o ia matar. Portanto eu penso que a sua escrita, apesar de ser brilhante, tem esta ausência. Porque não foi capaz de admitir para si próprio quem ele foi. Há na obra uma ausência que tem a ver consigo próprio.

Talvez veja isso por o ter conhecido bem. Para os outros, ficou uma certa coerência interna da obra.

 Talvez. Mas acho que há naqueles livros brilhantes uma ausência emocional. Algo semelhante aconteceu com E. M. Foster. Conheci-o quando era estudante em Cambridge. Eu era do King's College e ele era um Fellow, vivia lá. Eu fui ter com ele, que era um homem mais velho, muito interessado na Índia. Um dos grandes amores da sua vida foi um homem indiano. O King's College, na altura dele, tinha fama de ser uma universidade gay. Todos esses homossexuais de génio, como John Maynard Keynes, estavam lá.

Eu era um miúdo, mas Foster interessou-se, por eu ser indiano. Tomei chá algumas vezes e dei passeios com ele. Sei que, como escritor, ficou paralisado por não poder ser abertamente homossexual, porque no seu tempo era ilegal, podia ser preso. Então parou de escrever. Passagem para a Índia foi publicado, e ele viveu mais 40 anos sem escrever outro romance.

Senti a respeito dele o que sentiria sobre Bruce: nenhum deles foi capaz de realmente se exprimir como era, como homossexual.