Entrevista

"Um livro, basta pô-lo a secar"

Salman Rushdie sobre o futuro dos livros.

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Reuters/RALPH ORLOWSKI

Os livros vão sobreviver?

Quando este livro saiu na América, um dos lugares onde fui falar sobre ele foi o quartel-general da Google, em Mountain View, na Califórnia. Era uma audiência enorme, de jovens “techies” brilhantes. A sua concepção do mundo resume-se ao código. Eu disse-lhes: reparem que esta coisa do livro é na verdade uma peça de hardware muito sofisticada. Se deixarem cair um computador no banho, fica destruído. Um livro, basta pô-lo a secar. Se deixares cair o computador na praia, não fica em muito bom estado. Um livro, basta sacudir a areia. E reparem na velocidade com que as novas tecnologias ficam obsoletas. Quem tem ainda uma máquina de fax? Os documentos de fax eram revestidos de uma substância que faz apagar os textos em alguns anos. Os faxes mais antigos já estão ilegíveis. Mas conseguimos ler um livro com mil anos. E que me dizem da disquete? Quem tiver uma colecção delas não conseguirá mais ler o seu conteúdo.

Eles ouviram, e depois voltaram todos aos computadores?

Acho que ficaram em choque. Perguntei-lhes para avaliarem objectivamente: o computador ou o livro, qual das tecnologias é mais sofisticada? Ficaram a pensar.