Adriano Miranda
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Adriano Miranda

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Estou convosco. Filho de refugiado

O meu pai era um homem calmo. Um poço de sofrimento, um oceano de bondade. Eu era uma criança feliz e ele fazia tudo para isso. Ele não teve infância. O fascismo roubou-lhe a escola, as brincadeiras, o amor. Matou-lhe o pai. Prendeu-lhe a mãe. Deu-lhe fome, muita fome

As montanhas eram altas. De pedra dura. Os fascistas japoneses tinham invadido a ilha. Eles perderam o pai. Fugiram durante anos por montanhas e vales. Eram crianças. Um dia chegaram a uma praia. Viram um barco australiano e fizeram uma fogueira. Um bote para a liberdade veio resgatá-los. De Timor foram para um campo de refugiados na Austrália. De lá, foram para Moçambique. De Lourenço Marques para Lisboa. Abandonados no cais de Alcântara foram recolhidos pela polícia e entregues à Casa Pia. O meu tio e o meu pai eram crianças. Refugiados da Segunda Guerra Mundial. ?

O meu pai era um homem calmo. Um poço de sofrimento, um oceano de bondade. Eu era uma criança feliz e ele fazia tudo para isso. Ele não teve infância. O fascismo roubou-lhe a escola, as brincadeiras, o amor. Matou-lhe o pai. Prendeu-lhe a mãe. Deu-lhe fome, muita fome. ?

Olhava para ele sem ele olhar para mim. Via-lhe os olhos, as longas mãos, e tentava adivinhar as histórias que por ali estariam. Ele nunca quis contar nada. Sabia que a sua história era demasiado violenta para mim. Ficou o eterno silêncio entre nós. Mas esse silêncio quase todos os dias me visita. Pelas saudades que tenho do meu pai e pela teimosia que o mundo tem de repetir a história. Ou melhor, não mudar a história. Um dia, sentado em frente a um monitor na redacção, as lágrimas romperam em cascata. As imagens cruéis de seres humanos estropiados pelos bombardeamentos israelitas na Palestina eram demasiado brutas e cruelmente verdadeiras. E aquele monitor da redacção continua a debitar todos os dias imagens de refugiados afogados na Grécia, de crianças desmembradas na Síria, de polícias musculados na Hungria, de muros farpados, de tendas esfarrapadas, de pão duro e olhos de fome.

Viktor Orbán saiu derrotado no referendo sobre a integração de refugiados na Hungria. Ainda bem. Foi um leve sinal que todos sabemos que Orbán não vai respeitar. Orbán pertence a uma extrema-direita que cresce como cogumelos pela Europa fora. Um perigo, aliado ao discurso populista de fácil sementeira entre povos socialmente fragilizados e economicamente depurados. Enquanto assim for, aquele maldito monitor da redacção vai continuar a mostrar o mundo como ele é, cruel e assassino. Viktor Orbán e outros aparecerão de vez em quando sorridentes. ?

O meu pai foi um herói desde criança. Venceu sempre. Um dia veio a doença e desistiu. Cansado, deixou-se ir até os olhos se fecharem. Ainda era cedo, merecia mais. Merecia viver porque era um homem bom. Como todos os refugiados do nosso tempo. São homens bons. Têm o direito a viver. Nós, o dever de os acolher.