Depois da trégua, foi a vez da diplomacia sucumbir à força das bombas na Síria

Putin jogou tudo no tabuleiro de Alepo, deixando americanos a ponderar as suas (poucas) opções. Cada vez mais embrenhada na guerra, Rússia envia sistema antiaéreo para a sua base de Tartus.

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Socorristas retiram o corpo de uma criança que morreu num bombardeamento nesta terça-feira Abdalrhman Ismail/Reuters

A gota de água foi um novo bombardeamento contra o maior hospital do Leste de Alepo – ao terceiro ataque em menos de uma semana, o que ainda restava do MH10 foi destruído. Vergado pelas evidências, o Departamento de Estado norte-americano anunciou a suspensão de todos os contactos que mantinha com a Rússia na esperança de ressuscitar a trégua na Síria. A via diplomática para resolver a guerra está por agora fechada, por muito que Washington e Moscovo, entre as trocas de acusações, garantam que não vão desistir. O único caminho à vista é o das armas.

“Acabou a paciência de toda a gente com a Rússia […] Não há mais nada que os EUA e a Rússia possam falar” em relação à Síria, disse Josh Earnest, porta-voz da presidência americana que há vários dias pressionava o secretário de Estado, John Kerry, a reconhecer que não era possível manter os canais diplomáticos com o mesmo Governo que ordenava novos e mais intensos ataques aéreos sobre Alepo. Moscovo respondeu que a culpa pelo colapso da trégua foi da incapacidade americana para cumprir a promessa de convencer os rebeldes que apoia a distanciarem-se dos jihadistas com quem têm feito alianças de oportunidade em várias frentes de batalha.

“Gostaríamos de acreditar que [Washington] provará que tem sabedoria política e que os nossos contactos nos domínios particularmente sensíveis e indispensáveis para salvaguardar a paz vão prosseguir”, reagiu Dmitri Peskov, porta-voz do Presidente Vladimir Putin, acrescentando que Moscovo não desiste de encontrar uma solução política para a guerra – “o que não quer dizer que vamos renunciar aos projectos de luta contra o terrorismo e de assistência à força aérea síria”. Ao final do dia, o Ministério da Defesa russo confirmou ter enviado para a base naval de Tartus, na costa mediterrânica da Síria, sistemas de defesa antiaérea S-300, uma manobra inédita que aparenta ser a resposta às discussões em curso nos Estados Unidos sobre que resposta dar à escalada militar da aviação síria e russa.

Mas com Barack Obama em fim de mandato na Casa Branca e reticente como sempre numa intervenção militar directa no conflito, Moscovo aposta que Washington não irá além do bluff e mantém inalterada a sua estratégia, seja no campo de batalha – para onde enviou nos últimos dias mais aviões – seja na frente diplomática. A este propósito aceitou discutir a proposta de resolução apresentada pela França no Conselho de Segurança da ONU em que se pede o reinício imediato da trégua em Alepo e a proibição de todos os voos militares sobre a cidade. Mas avisou logo que o texto, que prevê a discussão de “novas medidas” em caso de incumprimento por qualquer dos beligerantes, lhe levanta “muitas questões”.

Um erro de Putin?

Apesar de tudo o que correu mal na semana em que a “cessação de hostilidades” vigorou e de todo o cepticismo que o acordo entre americanos e russos gerou desde o início, o beneplácito russo à feroz ofensiva lançada a 22 de Setembro pelo regime sírio sobre a metade de Alepo em poder dos rebeldes intriga os observadores.

“Moscovo acredita realmente que pode beneficiar em avançar sozinho, apoiando um regime brutal numa nação ensanguentada?”, questionava-se o analista da Al-Jazira Marwan Bishara, recordando que o acordo celebrado com os americanos no início do mês era vantajoso para os russos – Washington aceitava a necessidade de separar rebeldes dos jihadistas e comprometia-se a coordenar com Moscovo as ofensivas contra os extremistas, não colocando o futuro do Presidente Bashar al-Assad como condição.

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A “cessação de hostilidades” oferecia “aquilo que na perspectiva russa pode ser descrito como uma vitória limpa”, concorda Philip Gordon do Council on Foreign Relations. Mas ao decidir participar na ofensiva de Alepo, Putin “está a impor-se custos enormes, não apenas para os sírios indefesos, mas para a própria Rússia”, alienando os parceiros internacionais e arriscando embrenhar-se num conflito sem fim. “A Rússia e Assad não podem vencer, mesmo com uma campanha de bombardeamentos maciços”, diz o analista, lembrando que em cinco anos de guerra as forças governamentais perderam 100 mil soldados e não têm agora capacidade para controlar todo o território.  

Outros analistas acreditam que Putin tem objectivos claros e não hesitou em passar à acção. “Ele quer dar a Assad uma vitória decisiva” e “privar a oposição daquela que considera a sua capital”, disse à AFP Thomas Pierret, perito na Síria da Universidade de Edimburgo, explicando que, sem Alepo, “a rebelião será relegada para nada mais do que uma insurreição periférica”. Fabrice Balanche, do Washington Institute for Near East Policy, acrescentou à mesma agência que os últimos meses levaram Moscovo “a não acreditar na possibilidade de colaborar com os EUA” para pôr fim à guerra na Síria e que para manter Assad no poder é essencial tomar Alepo – sem a cidade, diz, “ele não passa de um meio Presidente.”

John Kerry garantiu nesta terça-feira que o encerramento dos canais diplomáticos com a Rússia não significa o fim dos esforços para resolver o conflito. “Não estamos a desistir o povo sírio”, disse, explicando que continuará a batalhar noutros fóruns “por uma real cessação de hostilidades em todo o país e que inclua a proibição dos aviões de combate russos e americanos sobrevoarem determinadas áreas”. Mas longe dos microfones, o mesmo Kerry admitia há dias que os seus esforços há muito tinham sido minados pela recusa de Obama e do Congresso de usarem a ameaça de força para dar crédito à diplomacia americana.