André Nobre
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André Nobre

A praxe é dura, mas nunca é praxe

Não precisam da praxe para o que quer que seja. Lamento, doutores, mas há mais gente a apoiar o ministro — esse mauzão

Há uma teoria da moral universal dos praxantes que diz “só deve ter opinião sobre a praxe quem a praticou”. Ora pois, aqui estou eu: humana praxada, membro de uma comissão de praxe — já lá vão os anos — e, espantem-se as almas, absolutamente contra a praxe.

Tenho portanto, segundo esta regra quase inserida no código praxístico, toda a legitimidade para falar sobre o assunto. E mesmo assim, no final deste artigo, os obstinados pela prática que nunca é prática hão-de elaborar outra teoria para me retirar a razão de argumentar. A ver vamos. Ergam-se as colheres de pau. Abra-se o tradutor para latim. O julgamento vai começar.

Na minha humilde ideia do processo de integração de um elemento forasteiro numa nova comunidade, entendo que — até pela via do bom senso — se deva colocar o forasteiro numa posição de conforto, de modo a adquirir empatia pelo espaço e pela gente. Disse “posição de conforto”. Vejamos, no cérebro sádico de boa parte dos estudantes, estar de joelhos colados ao asfalto e olhos pregados à calçada são posições de relaxamento muscular. Uma terapia intensa para o físico e psicológico e até espiritual. Há lá melhor forma de se sentir em contacto com a terra, em harmonia com o solo e respeitador de uma hierarquia fictícia?

Objetivamente, e querendo fazer uma pausa na quase desonestidade irónica, quando perguntam por aí aos senhores doutores sem doutoramento se a praxe é deixar os meninos e meninas de joelhos, com dores nos tímpanos provenientes dos gritos histéricos das doutoras com o ego inchado pelo poder de colocar alguém de quatro, violentados psicologicamente (e às vezes fisicamente), retidos até às tantas da noite, quando no dia seguinte há aulas para frequentar (o propósito universitário), se lhes perguntar se tudo isto é praxe dirão, obviamente, que não. E se lhes perguntar, então, o que é: irão responder que é o serviço voluntário, a ajuda às instituições e, até, a serenata, como já dito publicamente. Portanto, estamos a falar de eventos e ações que ocorrem, na melhor das hipóteses, uma vez por ano. A verdadeira praxe. Tudo o resto é puro entretenimento.

Lanço o desafio para que neguem isto e assumam, de vez, o que a praxe realmente é, já que o orgulho em trajar e gritar é tão visível, há que assumir esse comportamento e dar-lhe o respetivo nome. Assumam isso e assumam que não passa de pura humilhação gratuita. Pior: ainda sai do bolso dos caloiros, que compram as bugigangas para se enfeitar. Bonito.

Volto a repetir: escreve-vos alguém que foi praxada e que, com alguma boa fé e falta de noção à mistura, acabou por praxar, ainda que num registo moderado. Mas não interessa, era praxe. Divirtam-se, juntem-se, jantem juntos, bebam juntos, corram a cidade juntos. Não precisam de andar em fila, amarrados, de cabeça para baixo, a seguir ordens de alguém que se quer respeitado por ter sete, oito, nove matrículas e por continuar a viver no mundo do faz de conta. Vivam intensamente todas as novas descobertas. Aprendam. Não precisam da praxe para o que quer que seja. Lamento, doutores, mas há mais gente a apoiar o ministro — esse mauzão — que vos quer tirar o único objetivo da vossa vida universitária: viver na utopia do poder. A praxe é dura, mas nunca é praxe.