Entrevista

Memórias com luz e escuridão

A memória de Malibu foi só o ponto de partida. Depois, quem mandou mais foi o instinto e o vaivém das ondas na areia a lembrar como (fatalmente) tudo muda. Alexandra Hedison mostra Everybody Knows This is Nowhere a partir de 7 de Outubro no Centro Cultural de Cascais.

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As janelas, as cortinas e os véus são uma constante na obra de Alexandra Hedison: “Olhar para fora através da fotografia é projectar a imaginação de alguém”

Durante anos, o trabalho de actriz de Alexandra Hedison (Los Angeles, 1969) serviu para alimentar outra coisa. Mas continuou a fazê-lo até que percebeu que as séries de televisão com episódios de uma hora não eram a sua praia. A fotografia instalou-se em definitivo na sua vida na viragem de século e, desde então, nunca mais parou de lhe dedicar tempo e energia. Para erguer Everybody Knows This is Nowhere, a sua última série, regressou à sua praia de sempre e às memórias dos dez anos de infância que lá passou — Malibu. É um trabalho sobre uma memória “gasta pelo tempo e pelas marés”, tal como a paisagem que lhe deu abrigo, que vive no efémero e condenada à mudança constante.
Conversa por email, com uma fotógrafa que não se arrepende de ter passado para trás das câmaras “por um minuto sequer”.

No dia em que decidiu trocar a carreira de actriz pela fotografia, tirou um auto-retrato. Porque o fez? Como olha hoje para essa imagem?
Na altura em que andava a experimentar câmaras e películas, decidi levar uma delas para onde quer que fosse. Isto passou-se obviamente antes de termos câmaras fotográficas nos telemóveis. Na verdade, foi antes de termos telemóveis. Nesse momento ficou claro para mim que a fotografia tinha suplantado aquilo a que podemos chamar um hobby. Estava muito insatisfeita com o trabalho de actriz. Fazia séries de televisão com uma hora que não significavam nada para mim, a não ser darem-me as condições financeiras para sustentar o meu “hábito” fotográfico.
Esse auto-retrato é muito significativo. Foi tirado depois daquela que acabou por ser a minha última audição como actriz. Depois da audição, fui à casa de banho do edifício e, por uma razão qualquer, decidi tirar duas fotografias de mim com a câmara afastada do corpo. Não vi qual era o enquadramento das fotografias até as revelar. Descobri depois que eram duas imagens que cortavam o corpo a meio. Imprimi as duas fotografias na mesma folha, um processo que envolveu tapar uma das imagens e alinhar às cegas a segunda com a primeira. O resultado foi uma espécie de arquitectura perfeita de linhas e dissecação. As fotografias em conjunto formam o meu corpo, sem braços. O espaço entre as duas é onde estaria o meu coração. Esta imagem marca a minha jornada como artista, onde comecei uma espécie de exploração consciente do espaço definido entre dois pontos.

Alguma vez se arrependeu da decisão de passar para trás das câmaras?
Nem por um minuto sequer.

Ao longo das várias séries que realizou é possível encontrar escolhas e abordagens transversais, como a atenção ao inacabado, à ideia de mudança. Por outro lado, parece sintonizada com uma expressão fotográfica que privilegia os lugares menos apelativos e as coisas “menos importantes”. Preocupa-se com a coerência na abordagem aos temas?
Sou guiada pelos meus impulsos, que tanto podem ser bons como maus. No trabalho que deu origem a Rebuilding [2005], percebi que estava a ser guiada pelo instinto. Fui atraída para edifícios e casas demolidas e não lutei contra o impulso de os fotografar. Com Ithaka [2008] fiquei totalmente frustrada com o processo. Não sou uma fotógrafa de paisagens, por isso não percebi porque fui impelida a fotografar uma paisagem natural tão densa. Fotografei de tudo, desde galhos emaranhados, ervas daninhas, árvores. Estava perdida e levou algum tempo até perceber que este trabalho era, na sua essência, apenas sobre isso.

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Este auto-retrato marca o dia em que Alexandra Hedison decidiu tornar-se fotógrafa

Gosta de chegar às entranhas dos lugares onde fotografa?
Absolutamente. Uma boa parte do meu interesse [na fotografia] passa por aprofundar o conhecimento de mim mesma do ponto de vista psicológico. Muitos desses impulsos são inconscientes e tornam-se mais evidentes através da descoberta, fotografando, triando, editando e revendo.

É frequente encontrar ao longo do seu trabalho imagens de janelas que escondem mais do que mostram o que está para além delas. Porque procura tanto este efeito de véu?
Não tenho bem a certeza. Mas sou infinitamente atraída para véus, ecrãs e cortinas. O reflexo dos ecrãs força o espectador a incluir-se no que está a ser visto. Funciona como uma identificação do momento presente. Quando olhamos para a paisagem, procuramos “lá” alguma coisa que esteja para além dela. Olhar para fora através da fotografia é projectar a imaginação de alguém. Estou interessada num diálogo sobre o espaço que se situe entre o momento presente e essa projecção. Talvez estes véus no meu trabalho sejam um convite para esse diálogo.

A série Rebuilding foi feita num período muito particular da sua vida, no qual tinha saído de uma relação amorosa. Os nomes das imagens são datas marcantes da sua vida e não a data em que foram tiradas, por exemplo. A sua expressão fotográfica parece muito determinada pelo momento pessoal que está a atravessar. É assim?

A arte é sempre um processo de descoberta pessoal que joga com a expectativa de poder comunicar visualmente essa jornada com o espectador. Conhecermo-nos e darmo-nos a conhecer são impulsos elementares de todos os artistas. No caso de Rebuilding as datas tentavam identificar pontos de transição. Perguntando quando é que isto mudou realmente daqui para ali, tento identificar algo que está em constante mudança.

Everybody Knows This is Nowhere é um trabalho de revisitação de lugares que lhe são muito familiares, ao contrário do que aconteceu na série anterior, Ithaka, na qual deambulou por espaços que lhe eram desconhecidos. Como é a experiência de fotografar nestas duas condições — como uma “velha conhecida” e como uma forasteira?
Ambos os lugares me agarraram visceral e emocionalmente. Nowhere é sobre o regresso a uma memória familiar examinando-a através de uma perspectiva diferente, uma memória gasta pelo tempo e pelas marés. Ithaka também é uma jornada, mas muito diferente. Vagueei através de lugares novos e primordiais. Era sobre fazer sentido no meio de uma paisagem natural, infinitamente desconhecida e sem referências prévias.

Fez questão que soubéssemos que tem uma ligação pessoal forte com Malibu. Pensa muito na ligação de intimidade que vai conseguir criar (ou não) com quem vê ou prefere alhear-se desse encontro?
Quando começo alguma coisa, é para levar até ao fim. É uma missão que se inicia com um impulso pessoal. Depois, quando as ideias e as imagens se vão definindo, apercebemo-nos de que o significado se revela por si. Ver a verdade e a beleza a emergirem é um momento excitante. Mas só nessa altura pergunto: como é que posso comunicar este sentimento, estas ideias, esta energia com os outros? Para que possa ser bem sucedida, este esforço de comunicação exige tanto de ti como dos outros.
O trabalho Nowhere é sobre memória e sobre o processo de construção de uma história ao longo do tempo. A praia que está em frente a Malibu e está em constante fluxo com as estações e as mudanças ao longo do ano. Tendo em conta que este lugar faz parte da minha história, foi fácil para mim fazer uma ligação entre a natureza em mutação e a natureza da memória.

As fotografias de Malibu dão a sensação de que quer falar-nos sobre alguma coisa que desapareceu definitivamente. Será que estamos perante a celebração do fim de alguma coisa ou perante a tentativa de reavivar o que se perdeu?
Acho que as duas são verdade na exacta medida. Tento não julgar quando fotografo. Faço os possíveis para seguir apenas o instinto e deixar que as imagens evoquem múltiplas possibilidades para mim e para o espectador. Há tanta dualidade e complexidade na experiência da arte.

As montagens com fotografias de estacas fazem lembrar as sequências de Ray Metzker. Há alguma influência deste mestre da fotografia americana nestas imagens em particular?
Não. Mas gosto muito do lado arquitectural e gráfico do trabalho de Ray Metzker. As minhas imagens a preto e branco têm sido comparadas com alguns trabalhos de James Welling sem câmara com os quais não estava familiarizada quando os criei. As fotografias de Nowhere são muito sobre a câmara e sobre a memória do filme [analógico]. As composições a preto e branco foram feitas a partir da estacaria que suporta as casas que estão em cima da praia em Malibu. Essas fotografias foram montadas sem a sequência em que estão no negativo e incluem as pontas de segurança [sem imagem] como uma extensão do trabalho em si.

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E estas sequências que resultam em imagens quase abstractas são uma forma de apelar a um lado puramente sensorial daquele lugar?
Absolutamente. São também específicas para a minha descrição da memória. É a minha maneira de descrever as coisas de que me lembro mas que tento esquecer ou omitir.

O confronto homem/natureza está muito presente na exposição. Não deixa de ser incrível verificar que estas casas se mantêm de pé, apesar de fustigadas pelo mar. Não tinham medo de que o mar levasse tudo enquanto dormiam?
Enquanto crescia [em Malibu], passei o tempo suficiente deitada na cama a ouvir o marulhar das ondas para perceber que isso se tornaria parte de mim, algo familiar. A mudança é uma coisa com que temos de contar. Até agora, felizmente, aqueles lugares de Malibu não foram alterados de maneira a ficarem irreconhecíveis. Mas um dia essas estruturas podem desaparecer completamente.

Continua a fotografar Malibu? Consegue identificar bem os sinais que apontam para o fim de um trabalho e início de outro?
Nunca sei exactamente onde os meus interesses me levarão. Às vezes, alguma coisa ou algum lugar podem importunar-me durante anos. Ando às voltas, obsessivamente, e regresso a eles. A ideia final de um projecto começa a ganhar forma ao longo do tempo. Aprendi a ser paciente.

Já falou deste trabalho como se tratasse de uma canção que nos estivesse a cantar. Aproveito a deixa para saber se pensa no som e no ritmo em algum momento do processo criativo, incluindo selecção e montagem da exposição.
O que quis dizer com essa comparação é que o trabalho fotográfico que faço é a minha linguagem. É como uma canção? Não estou segura. Talvez seja mais como uma banda sonora. O oceano também é uma banda sonora. As ondas, o rebentamento na areia, e depois voltam para trás. Para a frente e para trás. Há um ritmo nisto, de certeza.
Não conseguimos perceber totalmente se este lugar tão “dramaticamente mutável” lhe deixou boas ou más memórias. Gosta de lá regressar?
Deixei Malibu quando tinha dez anos. Foi um crescimento muito rudimentar e profundamente despreocupado. As memórias são assim. Alguma luz, alguma escuridão. Ter regressado para fazer este trabalho foi uma verdadeira exploração. O que é a verdade? Conseguirei encontrá-la nas imagens que tenho na memória ou nas que fiz em fotografia?

Li que tem uma fotografia da fotógrafa holandesa Rineke Dijkstra na parede de casa. É coleccionadora? Que outros autores tem?
Ah, vendi essa fotografia quando me mudei para Londres há vários anos, ainda sem saber que regressaria [aos EUA]. É uma daquelas coisas de que me arrependo de ter feito. Ainda penso nessa imagem. A arte rodeia-me em toda a casa. Colecciono peças para as quais gosto de olhar. Cada fotografia carrega uma história em potência, na qual se pode entrar por um momento. Acho que não me posso considerar uma coleccionadora. Sou só alguém que adora arte.

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Percebe logo quando se apaixona por uma fotografia?
Sim. Ainda que esse amor possa crescer à medida que aumenta o tempo que olho para ela. Tento avaliar bem.

Qual é a sua rotina básica de um dia a fotografar?
É sempre diferente. Quando posso, gosto de fotografar apenas por minha conta. Ando a vaguear muitas vezes, como se tivesse perdido alguma coisa fazendo o caminho inverso a procurá-la. Às vezes fotografo apenas umas horas, noutros dias demoro mais tempo.

Pode descrever-nos a última fotografia que tirou?
A última fotografia foi provavelmente de uma sombra que vi no chão ou um reflexo que passou por uma janela. Ou talvez do meu cão que é muito bonito. O meu iPhone está cheio de fotografias que num certo sentido são inúteis, mas são inspiradoras quando passo por elas. Agora, estou a trabalhar numa série de imagens de locais que estão em construção em Paris. Vou estar lá a trabalhar antes da inauguração em Cascais. E acho que a última fotografia que vou tirar antes do dia 7 de Outubro será de algo que a maior parte das pessoas passa ao lado ou tenta ignorar.