Opinião

Trump, o agitador

Como foi possível terem escolhido Donald Trump?

Continuo às voltas com a mesma pergunta simples: como foi possível terem escolhido Donald Trump? O que parecia impossível aconteceu, deixou de ser uma brincadeira de mau gosto e, apesar de as sondagens não lhe darem vantagem, continua a ser possível ser ele o sucessor de Barack Obama. Como se explica este "novo normal"?

Uma resposta possível é a má companhia de Trump nas primárias. Quem tinham os republicanos para escolher? Este Verão, o escritor Eliot Weinberger fez na London Review of Books um levantamento minucioso. Uma síntese: podiam ter escolhido o ex-senador Rick Santorum, que compara a homossexualidade a "sexo entre um homem e um cão" e acredita que a responsabilidade de educar os filhos é dos pais "e não de funcionários públicos" (i.e., professores). Ou o ex-governador Bobby Jindal, que cortou 80% dos fundos para o ensino superior e defende o direito de um restaurante recusar servir um homossexual em nome da "liberdade religiosa". Ou a empresária Carly Fiorina, despedida do cargo de CEO da Hewlett-Packard. Ou o senador Rand Paul, que propôs a eliminação radical dos apoios sociais. Ou o ex-governador Chris Christie, que é contra a entrada de refugiados sírios, "incluindo bebés órfãos". Ou o ex-governador Jeb Bush, que abriu a primeira prisão cristã do país. Ou Mike Huckabee, que acredita que "às vezes há mais liberdade na Coreia do Norte do que nos EUA". Ou o senador Marco Rubio, que diz que o Senado é uma "perda de tempo". Ou Ted Cruz, que notou o facto "indiscutível de a esmagadora maioria dos criminosos violentos ser do Partido Democrata". Foi desta pool de doidos que os republicanos escolheram Trump. Já agora, Trump foi escolhido por 9% dos americanos.

Outra explicação para o "new normal" é a ignorância. É um tema predilecto quando se fala nos EUA, sobretudo com olhos europeus. Mas é um cliché irresistível. Recentemente, perguntaram ao candidato libertário Gary Johnson — que tem 10% das intenções de voto —, como resolveria a crise humanitária de Alepo. A resposta foi um espontâneo "O que é Alepo?". Incrédulo, o jornalista disse: "Está a brincar...". "Não. O que é Alepo?". O mesmo Gary Johnson que esta semana foi incapaz de nomear um único líder mundial por quem tem admiração. É verdade que nas campanhas americanas a política externa surge pela porta das perguntas tipo "apanhei-te!". Herman Cain, candidato à nomeação republicana em 2012, ficou célebre por não conseguir dizer Uzbequistão. "Se me perguntarem quem é o Presidente do Ubeki-beki-beki-beki-stan-stan eu vou dizer: 'Não sei.'" Os políticos não valorizam, os eleitores negligenciam e todos olham para a política externa como uma coisa "distante" e "dos outros", apesar de milhares de americanos morrerem em guerras no estrangeiro (400 mil na II Guerra Mundial, 90 mil no Vietname, nove mil no Iraque e Afeganistão).

Uma terceira razão é a desesperança no sistema e o crescente niilismo. Numa espécie de génio-mau saído de uma caixa de comentários do Facebook — sem filtro, sem decoro, sem rigor nem cortesia —, Trump é o homem que diz "toda a verdade" daqueles que não têm voz, o multimilionário que fala dos problemas dos operários das fábricas que fecharam como resultado da globalização e de acordos de livre comércio, que assume o racismo que se esconde e a misoginia que se disfarça. Trump libertou milhões de americanos de um armário cheio de coletes-de-forças. E não falo do politicamente correcto. Se um candidato à presidência pode dizer que não sabe se pagou os impostos mas que, se não pagou, é porque foi "smart", a ética desapareceu do vocabulário da política americana. Falar do "new normal" é falar de um candidato que mentiu 87 vezes em cinco dias sem mostrar vergonha. O "new normal" é espectacular, é vazio, é excêntrico e é ofensivo. Em parte é fruto do que o filósofo político Sheldon Wolin definiu como "a democracia fugitiva", na qual o cidadão é reduzido à condição de eleitor, "periodicamente cortejado, mas em regra mantido à distância do processo de decisão, a quem é permitido emergir efemeramente e de acordo com o guião dos 'fazedores de opinião'". A democracia americana "está na defensiva", diz Wolin no célebre ensaio Fugitive Democracy. "Duas guerras — a fria, contra a URSS, e a quente, contra o terrorismo — transformaram a sociedade liberal e predominantemente secular numa sociedade conservadora e milenarista", sendo que "o novo conservadorismo é agressivo, proselitista e, numa palavra, agitador". Por isso, Wolin propõe novas palavras: em vez de dizermos "democracia", o correcto seria dizer "democracia de gestão eleitoral".

Uma quarta explicação possível para a força de Trump é a percepção de que o país está em crise. A voz de um sindicalista do Ohio: "As pessoas não percebem nada de política comercial. Percebem que há cinco anos tinham um trabalho que lhes dava 80 mil dólares brutos anuais e que agora têm de ter dois empregos para ganhar 30 mil". É por isso que há democratas das classes mais baixas que vão votar Trump. O politólogo russo Moisey Ostrogorsky escreveu há mais de um século que os "eleitores americanos só vêem as vantagens do presente". Quando se pergunta o que vai fazer como Presidente, Trump responde: "Tornar este país grandioso outro vez!". Quando se faz a mesma pergunta aos seus apoiantes, a resposta é um eco. Isto apesar de, nos oito anos do mandato de Obama, os homicídios terem caído 13%, o crime violento 16%, o controlo de venda de armas ter aumentado 60%, haver mais dez milhões de empregos, e as empresas terem aumentado os lucros em 150%. O desemprego baixou de 10% para 4,9%, mas nas sondagens os americanos dizem que o desemprego subiu. É enorme a vulnerabilidade perante a demagogia. Não é um mundo cor-de-rosa (a dívida pública aumentou 116% nos anos de Obama), mas os EUA não estão num estado de absoluta desgraça como Trump quer fazer crer.

A quinta explicação está nas expectativas líricas que os eleitores têm em relação aos políticos. Numa sondagem feita antes da crise de 2008, 63% dos americanos queriam "cortes nos gastos públicos", mas 85% queriam mais "projectos governamentais para a criação de emprego", "alegremente pedindo", como nota Larry M. Bartels em Unequal Democracy, "austeridade e aumento do investimento público ao mesmo tempo".

Quando é usado sozinho, o verbo "to trump" significa ultrapassar as expectativas. Quando é usado com "up" "to trump up" — significa desonestidade. Em Novembro saberemos qual dos verbos os americanos escolheram.