Editorial

Sinais de um mundo em desconcerto

À ferida aberta da Síria e à ameaça sul-coreana veio juntar-se um novo e perigoso rastilho: Caxemira.

O mundo já se habituou à fanfarronice bélica de Kim Jong-un, na senda do seu pai e do seu avô. Mas o delfim da ditadura norte-coreana quis, este ano, desafiar de forma mais dramática os seus adversários realizando cinco ensaios nucleares de potência crescente. A isto juntou um discurso provocatório belicista e testou um míssil balístico que atingiu pela primeira vez na história águas controladas pelo Japão. Depois, tirando uns temores passageiros entre os vizinhos asiáticos e a indignação internacional, nada mais sucedeu.

Mais a ocidente, na Síria, a tragédia da guerra prossegue no seu rasto sangrento, sem que a via diplomática tenha, para lá de acordos incumpridos, conseguido parar o fluxo da carnificina que, em Alepo, tem o seu símbolo mais trágico. Também aqui há uma figura que, como Jong-un na Coreia do Norte, precisa de mostrar ao mundo o seu poder. O flagelar contínuo de Alepo, reduzindo a cidade a escombros e semeando a morte entre rebeldes e civis, sem qualquer piedade, é prova disso. A Rússia ajuda Assad nos ataques aéreos, desde há um ano, e o que espantosamente se discute é se usa ou não “munições proibidas” pela ONU, como se as bombas “autorizadas” matassem mais docemente.

No meio geográfico destes dois conflitos, eis que se reacende outro, igualmente antigo: o de Caxemira. O Verão, neste território hoje dividido entre a Índia e o Paquistão como resultado de guerras e animosidades nunca saradas, já havia sido agitado por protestos e manifestações anti-indianas promovidas pelos pró-paquistaneses; mas um atentado recente, onde morreram 20 soldados indianos, levou a uma retaliação armada, com a Índia a gabar-se de ter entrado por 4 quilómetros dentro do território paquistanês para retaliar a tiro. Também aqui há uma figura que precisa mostrar o seu poder, por um lado para consumo interno (com objectivos eleitoralistas) mas também para mostrar ao mundo do que é capaz: Narendra Modi, o primeiro-ministro da Índia. Os velhos ódios estão ainda presentes e uma pequena faísca pode transformá-lo em algo mais grave. O Paquistão fala em “histeria de guerra”, apontando o dedo aos indianos; e estes acusam o Paquistão de ser um “Estado terrorista”. Se ficarem ambos pela retórica, nada sucederá. Mas um passo em falso, aqui, é tão ou mais perigoso do que Kim Jong-un acertar, num dos seus delírios militaristas, com um míssil no Japão ou na Coeria do Sul. A Índia e o Paquistão são potências nucleares e uma guerra ali seria criminosamente devastadora.

Por fim, no Pacífico, um assumido criminoso eleito presidente das Filipinas continua a procurar chocar o mundo com actos e declarações provocatórias. Rodrigo Duterte, enquanto a nível diplomático se afasta dos EUA e se aproxima da China, declara que ficaria “feliz” se conseguisse “massacrar três milhões de toxicodependentes”, numa clara alusão ao holocausto e aos hediondos crimes do nazismo de Hitler; mais uma figura, sinistra, que precisa mostrar o seu poder. Começa a haver demasiadas figuras assim, num mundo que mal se equilibra num desconcerto permanente e inquietante.