Salman Rushdie: “Este é o pior tempo de que me lembro”

O pessimismo de Salman Rushdie no auditório do Folio, em Óbidos.

Foto
O autor esteve em Óbidos MCT/Olivier Douliery

Num recinto com lotação esgotada, Salman Rushdie enumerou, durante uma hora e meia, todas as razões para se ser pessimista no mundo contemporâneo. Falou de religião, terrorismo, Trump, Facebook e outras sombras negras a que alude metaforicamente no seu último livro. Mas com o humor de quem sobreviveu à pena capital.

“Vivemos numa era de trevas”, disse Salman Rushdie, na noite de sexta-feira, aos cerca de 500 espectadores que encheram a tenda dos concertos do festival literário Folio, em Óbidos. “Nasci pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e este é o pior tempo de que me lembro”.

Rushdie conversava com a jornalista Clara Ferreira Alves, numa sessão que esgotou desde há uma semana, obrigando a organização a alterar o local previsto no programa, da Tenda de Autores para esta, com o dobro da lotação.

A escolha revelou-se acertada, porque o clima foi mais de espectáculo do que de palestra. O escritor britânico de origem indiana, conhecido mundialmente por ter sido condenado à morte pelo ayatolah Khomeini, do Irão, passou a hora e meia da sessão desfiando ideias pessimistas, numa conversa, porém, sempre viva e bem-humorada. Um pouco à maneira dos jinn, os seres mágicos da mitologia árabe que Rushdie fez protagonistas do seu último romance e a quem parece ter emprestado um pouco do seu próprio estilo.

O livro, Dois Anos, Oito Meses e Vinte e Oito Noites, uma espécie de paródia actual das Mil e Uma Noites (editado em Portugal pela D. Quixote), conta a história de um jardineiro cujos pés começaram a levitar a cerca de um centímetro do chão. Isto séculos depois de uma princesa jinn se ter apaixonado por um mortal, de quem teve muitos filhos. É uma alegoria satírica, fantástica, que não deixa ainda assim de pretender retratar o mundo de hoje, onde todas as regras e leis parecem estar subvertidas.

“Levitar a um centímetro do solo é desafiar a gravidade, tanto quanto levitar a quilómetros de altitude. Mas é mais engraçado. E causa muitos problemas. Imagine o que é querer conduzir um carro, e o pé ficar um centímetro afastado do acelerador. Ou querer ir à casa de banho e ficar sentada a um centímetro da sanita…”

Toda a conversa sobre o livro é tão louca quanto o próprio livro – “louco demais”? Pergunta Clara. “Não existe essa coisa de louco demais”, é a resposta –, mas permite falar de todos os temas do mundo contemporâneo, porque é disso que o livro trata. Segundo um método que é a própria versão rushdiana do realismo mágico, e que ele explica assim: “Tudo tem de ser verosímil ao nível das personagens. A forma como elas se relacionam entre si tem de ser realista. E os lugares também têm de ser descritos de forma verosímil. Se obedecermos a essas regras, as pessoas acreditam em tudo”.

O segredo, portanto, é descrever coisas fantásticas com preocupações realistas. Por exemplo um tapete voador. “É de tecido, mole. Por isso deve ser difícil uma pessoa equilibrar-se em cima dele, quando vai a voar. Além disso, deve estar frio, quando se ganha altitude. No realismo mágico, é preciso levar estas coisas a sério.”

Foi assim, sempre a falar do livro, de jinn e pessoas que levitam, que a conversa lá foi viajando pelos grandes temas do nosso mundo. A importância da religião foi um deles. “Eu sou um soixante huitard”, disse Rushdie, que era estudante no Reino Unido quando rebentaram os movimentos contestatários, o feminismo, o rock and roll. “Usávamos roupas loucas e drogas estúpidas, mas havia a contestação à guerra do Vietname, o movimento das mulheres, dos direitos humanos. O mundo moderno nasceu naquela altura. Do que não se falava de todo era de religião”. Era imprevisível a importância que ela viria a assumir no mundo meio século mais tarde. “Eu não gosto de falar de religião, mas é como se ela estivesse sentada no meio da sala. Não se pode estar na sala e fingir ignorá-la.”

“É como um elefante na sala”, disse a entrevistadora, colando a ideia a uma expressão portuguesa. “Muito maior”, corrigiu Rushdie. “Comparada com a religião, o elefante parece um rato.”

No livro, é feita uma comparação muito evidente entre o mundo irracional dos Jinn e o Estado Islâmico (ISIS). “Mas quando comecei a escrever esta história ainda ninguém tinha ouvido falar do ISIS. Era apenas o nome de uma deusa egípcia, ou de uma mercearia na rua onde vivo, em Nova Iorque. Já imaginou os problemas que terá hoje a Mercearia Isis? Mas enquanto eu escrevia esta história de uma guerra entre seres sobrenaturais, eis que essa guerra começou a tornar-se realidade. Não sei por que isso acontece. Eu tenho pedido aos meus livros que parem de se tornar realidade. Porque é suposto serem ficção”.

Nesta fase, a entrevistadora introduziu uma pergunta sobre a legitimidade de fazer humor com coisas sérias, como a religião e o terrorismo, numa estratégia de levar o entrevistado a falar do caso Charlie Hebdo.

“É claro que se pode fazer troça da religião", disse Rushdie. "Porque a religião é a coisa mais absurda que existe. E se não fazemos troça das coisas absurdas, fazemos de quê?” Referiu-se assim ao seu próprio caso, da publicação do livro Versículos Satânicos, que levou à fatwa (condenação) de Khomeini: “Foi uma guerra entre quem tinha e quem não tinha sentido de humor”. E manifestou-se estupefacto com a atitude de muitos intelectuais, incluindo um grupo de escritores seus amigos, que assinaram um documento criticando o Charlie Hebdo.

Essa espécie de “novo politicamente correcto”, na expressão usada por Clara Ferreira Alves, foi mais um dos traços do mundo contemporâneo que Rushdie deplorou. Outro foi a agressividade e futilidade das redes sociais. “No Facebook toda a gente é feliz. Está ininterruptamente de férias, o sol brilha sempre, tem os melhores amigos. É como se fosse impróprio falar da infelicidade”. Ao mesmo tempo, no entanto, “o anonimato permite ser incrivelmente agressivo e mal-educado. Parece que há uma geração que desconhece a civilidade. Isso preocupa-me muito. E tem consequências, como a emergência de falsos profetas como Donald Trump, ou Marine Le Pen, o Brexit…”

“Ou Boris Johnson”, acrescentou Clara.

“Tenho dificuldade em chamar a Boris falso profeta. Falso, sim. Boris é das piores pessoas que conheço, não passa de um rato…”

“Já estamos a perceber por que razão você está sempre a meter-se em sarilhos”, concluiu Clara.

E continuou-se com humor negro até ao fim, falando do declínio do Ocidente, a ausência de esperança na China ou na Índia, etc. Em Dois Anos, Oito Meses, e Vinte e Oito Noites, porém, há um vislumbre de final feliz, ao contrário, por exemplo, da distopia 1984, de Orwell. “A última frase de 1984 é ‘Ele amava o Grande Irmão’. Tinha sido criada uma sociedade em que o totalitarismo teve a vitória absoluta. Ora há aí uma visão errada da História, porque isso nunca aconteceu na História do mundo. Há sempre a possibilidade de revolta. A História não é imutável, quando parece que vamos numa direcção, pode haver uma súbita mudança. Se tivéssemos esta conversa em 1989, e eu dissesse que não haveria União Soviética por altura do Natal, diria que eu estava louco. Não se pode prever o futuro. A ficção científica não passa da ciência de errar sobre o futuro”.

A própria fatwa de Khomeini contra Rushdie não foi executada, à revelia de todas as previsões. E hoje Salman está em Óbidos a falar-nos do seu 17.º romance, quase 30 anos depois dos Versículos Satânicos. Sobre Khomeini, o que tem a dizer? “Estou contente por um de nós já não estar vivo. Não se metam com os escritores.”

Aplausos de pé. O Folio, festival literário de Óbidos, termina no domingo.

O PÚBLICO está em Óbidos a convite do Folio