Crítica

Na casa dos sonhos de Miró

Agora que finalmente podemos ver as obras de Miró, o veredicto é só um, sem dúvida alguma: a colecção é excelente, em alguns pontos mais excelente do que noutros, como sucede sempre, mas a constatação de estarmos perante obras-primas impõe-se.

Fotogaleria
Joan Miró: Materialidade e Metamorfose é o nome da exposição patente na Casa de Serralves Fernando Veludo/NFACTOS
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda
Fotogaleria
Adriano Miranda

E os mirós chegaram a casa. Com o anúncio de que a colecção do ex-BPN iria ficar definitivamente na Casa de Serralves, o presidente da câmara do Porto deu por encerrada a saga dos 80 e muitos quadros do pintor catalão que estão desde sexta-feira neste edifício modernista que se adequa tão bem à obra de Miró. Poderiam ter estado aqui desde sempre, desde que a casa era um lugar de habitação rodeado pelos belíssimos jardins também de desenho geometrizante, muito “art déco”, bem ao gosto das classes educadas europeias do tempo. É que a colecção que agora vemos começa exactamente nessa época.

Agora que finalmente os podemos ver, o veredicto é só um, sem dúvida alguma: a colecção é excelente, em alguns pontos mais excelente do que noutros, como sucede sempre, mas a constatação de estarmos perante obras-primas impõe-se. Miró, nos últimos anos de vida, foi considerado e promovido pela Catalunha como uma espécie de artista nacional por excelência (tal como o arquitecto Gaudí já o tinha sido), e a sua obra passou a ser reproduzida sobre todos os suportes imagináveis. Esse excesso de visibilidade e de reprodução poderá impedir alguns de apreciar a originalidade e qualidade das obras que se mostram agora em Serralves, mas, de facto, a opinião justa só pode ser esta: estamos perante um conjunto maravilhoso de trabalhos de Joan Miró.

A arquitectura da exposição, tal como a directora, Suzanne Cotter, tinha afirmado há algumas semanas, pensou no edifício como uma caixa de jóias, um invólucro que pudesse tirar todo o partido da colecção. Tanto Álvaro Siza, que trabalhou o espaço arquitectónico, como Robert Lubar Messeri, o curador, preferiram uma montagem que não privilegiasse a sucessão temporal das obras, mas que destacasse diferentes características da obra de Miró no seu todo, encaradas a partir desta colecção. O interesse pela experimentação de diferentes materiais é, como sublinhou Messeri, o próprio cerne da obra de Miró, aquilo que lhe permite servir a metamorfose de tudo, exactamente o conceito central de todo o seu trabalho. Nestas peças, esse interesse pela matéria está bem presente, e logo assim que entramos, no grande átrio que dá acesso simultaneamente às salas do piso térreo e às escadas principais. Encontramos aqui assemblages com tela de serapilheira (os Sobreteixins de que a colecção possui vários exemplares, que significa "sobre tecido" em catalão), obras sobre papel, sobre cartão, sobre papel alcatroado, materializadas por uma multiplicidade de técnicas impressionante. No texto do catálogo, Messeri cita nada menos do que 14 tipos de técnicas diferentes, da colagem ao decalque, da tinta-da-china à tinta esmalte, que se encontram nas peças agora apresentadas.

Joan Miró: Materialidade e Metamorfose, o nome dado à exposição, destaca este lugar primordial da técnica ao serviço do objectivo último da obra de arte. Para a compreender, entremos na sala principal do rés-do-chão, onde se apresenta um conjunto de obras que exemplificam muito bem o processo de definição da linguagem do pintor. Miró pertenceu a uma geração de ouro da arte espanhola. Foi apenas doze anos mais novo que Picasso, e faleceu em 1983, dez anos depois dele. Como Picasso e Dalí, instalou-se em Paris, onde tinha atelier ao lado de Masson – que procurava captar o acaso na sua pintura com areia atirada sobre cola, uma técnica de que encontramos reminiscências na obra de Miró. Conviveu com os cubistas, mas foi no Surrealismo que encontrou irmãos de percurso. André Breton, por exemplo, dizia que ele tinha uma “electricidade mental” que o levava a criar. Não nos parece estranha esta afirmação, já que ela concorda com o criador que adivinhamos por detrás da febre da experimentação.

A Dançarina, de 1924, bem ao estilo de outras obras-primas do mesmo período, como a Cabeça de Camponês Catalão, é decerto uma das primeiras obras em que Miró fixa o alfabeto plástico que será o seu. Com cuidado, atentamente, percebemos o arabesco das pernas, um olho, o cabelo, os seios. Tudo se passa como se Miró, já aqui, precisasse de construir de novo a forma dos seres do mundo para se saber pintor. A mulher, claro, mas também o pássaro, a nuvem e as estrelas – tem uma série belíssima de Constelações feitas durante a guerra – são os temas da sua obra, os seres e elementos que estruturam o universo que é o seu. Os títulos, como aqui, adquirem frequentemente uma conotação poética, bem diferente das explicações excessivas de Dalí, o outro surrealista espanhol. O Canto dos Pássaros no Outono, da obra escolhida para imagem da exposição, é um desses títulos, e que responde na tonalidade e na economia formal – apenas distinguimos as asas dos pássaros, o branco dos corpos, os olhos e o azul do céu, como se toda a forma tendesse para a dissolução no movimento efémero – a uma outra, muito conhecida, pertencente ao Metropolitan Museum de Nova Iorque, intitulada Esta É a Cor dos Meus Sonhos. Apresenta apenas uma mancha azul e a palavra “photo”.

Ainda nesta sala, outras obras, entre as quais uma peça horizontal, declinam este alfabeto formal até praticamente aos últimos anos representados na colecção. O primeiro andar abre com uma das melhores pinturas da colecção, a obra Mulheres e Pássaros, e completa-se com duas salas de trabalhos sobre papel, alguns de grande qualidade, como os desenhos La grande chaumière, de 1937, e as colagens com material litografado, também destes anos. A colecção , de resto, é rica em obras da década de 30, justamente aquela em que o pintor começou a trabalhar com Pierre Matisse, o primeiro proprietário da colecção.

Este caminho de desconstrução e reconstrução formal nunca resvala, exactamente como sucede com a obra de Picasso, para a abstracção pura. Alguns desenhos presentes na exposição parecem contradizer esta afirmação, mas uma observação atenta ainda permite detectar neles o mais ínfimo sinal da estrela, do olho do pássaro, do sexo da mulher. Esta é uma colecção que vai viver bem, no sentido em que todas as colecções devem viver, mostrando-se lado a lado com as suas congéneres internacionais, quer seja em Barcelona, na Fundação Miró, em Palma de Maiorca, em Nova Iorque ou noutra cidade qualquer. Aí, completar-se-á com as obras que Miró também criou e que não estão no Porto, sobretudo as esculturas em cerâmica e a gravura. E aqui, no Porto, cumprirá a mesma função que tem em Espanha, que é a de enriquecer a oferta cultural fora do centro político que é Madrid.

Por isso, uma das grandes notícias do dia da inauguração foi a de que um empréstimo de cinco ou seis quadros tinha já sido pedido para uma exposição em Barcelona em 2021. Esta é a melhor resposta que se pode dar a quem não quis a colecção em Portugal. E nem sequer temos que ser nós, os portugueses, a dá-la. A arte fala por si.

Sugerir correcção