"A nascer como cogumelos", startups portuguesas estão no radar do Google

Bernardo Correia, que assumiu há poucos meses as rédeas da empresa para Portugal, diz que o país "pode ser a Califórnia da Europa, se assim o quisermos".

"O Norte de Portugal, o Porto, Braga, são centros de startups fantásticas”, diz o responsável do Google em Portugal
Foto
"O Norte de Portugal, o Porto, Braga, são centros de startups fantásticas”, diz o responsável do Google em Portugal Miguel Manso

A questão surge recorrentemente: Portugal, onde a vaga de empreendedorismo tecnológico tem crescido (em parte, acompanhando o que se passa no resto do mundo) pode ser uma espécie de Califórnia europeia? O country manager (director) do Google em Portugal está do lado dos que acreditam que sim – e diz que, sem poder revelar detalhes sobre perspectivas de aquisição, a empresa americana está atenta ao que acontece em cidades como Lisboa, Porto e Braga.

“Portugal pode ser a Califórnia da Europa, se assim o quisermos. Não tenho a menor dúvida. De cada vez que conheço empreendedores em Portugal, que tento perceber a vitalidade do ecossistema, fico sempre com uma ideia positiva”, garante, numa conversa com o PÚBLICO, Bernardo Correia, que foi nomeado para o cargo em Maio, mas trabalha para a multinacional desde 2008.

Para Correia, o país tem “o talento, as pessoas, as condições e os incentivos” para fazer crescer o ecossistema de empreendedorismo. E destaca o “papel preponderante” do Governo neste processo (já desde a anterior legislatura se tem assistido ao acumular de iniciativas governamentais para incentivar o empreendedorismo). Reconhece, porém, alguns obstáculos, relacionados com a dimensão do país. “O problema de escala existe mais no desenvolvimento de competências digitais, na capacidade de criarmos pessoas suficientes para alimentar esse ecossistema”.

A Web Summit, um grande evento de empreendedorismo tecnológico que se mudou este ano para Lisboa, terá aqui um papel importante, argumenta Bernardo Correia. “É um excelente sinal para o mercado de que estamos prontos para atrair talento. Há condições para atrair esse talento e para o manter cá. Não há startup que não venha a Portugal e não fique apaixonada”, observa.

Não é fácil medir ou quantificar o ecossistema de startups tecnológicas em Portugal. Os registos de novas empresas dizem pouco sobre a natureza desses negócios e não permitem saber se essas empresas tem o carácter de inovação e os planos de rápido crescimento internacional que caracterizam uma startup. Mas, para além do número de empresas, é visível o aumento de espaços de cowork, de programas de aceleração e de prémios para este tipo de projectos. Bernardo Correia sintetiza: Portugal está “numa viragem interessante, começa a entrar a sério no e-commerce, começa a ver nascer startups como cogumelos e nota-se um dinamismo novo em relação à economia digital”.

As startups portuguesas estão no radar da multinacional americana, garante Bernardo Correia. “Nós fazemos muito trabalho de scouting [prospecção], de olhar para o ecossistema e de perceber onde estão startups que podem ter interesse”, refere. “Não posso comentar casos específicos, há empresas muito interessantes em Portugal de vários sectores, seja fintech [serviços financeiros], seja inteligência artificial, robótica... O Norte de Portugal, o Porto, Braga, são centros de startups fantásticas”.

A distribuição das startups em Portugal mostra, porém, uma forte concentração em Lisboa. Um relatório da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações divulgado esta semana indica que 41% das startups estão em Lisboa, quase o dobro dos 22% no Porto. Braga tem 9% e Aveiro, Coimbra e Setúbal têm 5% cada uma (os números resultam de uma amostra de mil empresas). “Considerando apenas startups de maior potencial, a tendência de especial concentração em Lisboa e Porto mantém-se, tanto em volume como nos valores de investimento recentes”, aponta o relatório.

Publicidade digital
Os anúncios são praticamente a totalidade das receitas do Google a nível global. No segundo trimestre, dos 21,5 mil milhões de dólares de receitas registados pela Alphabet, a empresa de topo na estrutura da multinacional, quase todos dizem respeito a actividades da subsidiária Google e cerca de 19 mil milhões tinham vindo da publicidade direccionada que a empresa coloca tanto nos seus sites (o motor de busca, o YouTube ou o Gmail, por exemplo), como nas páginas de outros sites.

Em Portugal, parte do trabalho do Google é fazer com que as empresas recorram aos seus anúncios – e este é um sector que ainda tem caminho a percorrer, considera Bernardo Correia. “O mercado publicitário em Portugal ainda está em desenvolvimento, mas em desenvolvimento acelerado. No Reino Unido, mais de metade do mercado publicitário é digital. Em Portugal não existem dados concretos, mas estimamos que há volta dos 15% ou 16%. Ainda há muito para crescer”, refere.

Outra área em que Bernardo Correia considera haver terreno a recuperar é a do comércio online: “A compra online tem alguns anos de atraso em relação a outros países.” Tipicamente, Portugal não surge bem classificado nas tabelas com indicadores de compras via Internet. Dados do Eurostat relativos a 2015 indicam que 31% dos utilizadores de Internet tinham feito compras online pelo menos uma vez ao longo dos 12 meses anteriores. A média europeia é de 53%.