Crónica

Todo o tempo do mundo

A última crónica do estudante Henrique Magalhães que nos foi descrevendo a experiência dos exames do ensino secundário, o Verão antes da sua mudança de mundo, que agora se concretiza com os primeiros dias de aulas no ensino superior.

Lembrei-me, o Verão só acaba quando te levo a casa.

Sentado no café da estação de Sete Rios, o tempo é uma mosca que voa, trapalhona, contra a pálpebra de mais um sonho que deixei, jacente e contrafeito, na gaveta da cómoda. Os carris vibram e, com eles, a minha cabeça estremece como a beata de cigarro daquele senhor encostado ao estilhaçado vidro do outro lado. Será, talvez, o décimo bafo derretido nos lábios pretos.

A mulher da voz sui generis recita, mais uma vez, a trajectória do comboio. Imagino-a loira, de cabelo apanhado, com a face sustentada, descongelada no microfone vaporoso. Imagino-a a entrelaçar os dedos no laço azul céu da farda, com um sorriso sereno no rosto pálido. Imagino-a de mais e já estou atrasado para a faculdade. Aligeiro o passo através da multidão e tiro o passe da carteira, mas na hora de o passar na máquina, prolongo-me e deixo a cancela fechar. Segue-se uma discussão sectária do segurança que, coitado, dá-me um raspanete por estar meio a dormir. Agradeço e peço desculpa. Encostado ao varão de metal do metro em direcção ao Colégio Militar/Luz, reparo, com admiração, no meu retrato no reflexo algo sombrio da janela. Realmente, isto de crescer não vem com um manual de instruções incluído no pacote. Aos dezassete anos achava que quando atingisse a maturidade, uma estrela explodiria no meu pensamento, encharcando-o de claridade e respostas sobre o mundo. Dou por mim a trautear um fantasma do secundário:

O menino da mamã tem medo de sonhar. 

Para quê fantasiar com uma vida melhor? 

Se uma vaporosa pernada na escada errada logo o leva a despenhar. 

Estava-se tão bem dentro das saias da mamã.

O menino da mamã quando caía, não se sentia fraco.

Mas também não se levanta sozinho. 

Nunca teve de o fazer. 

Fica especado, esmorecido e embrulhado no tórrido asfalto, folheando com embaraço os olhares coléricos de gozo.

O menino da mamã escreve, mas não sabe pegar numa caneta sem que todas as artérias estremeçam com o pavor de ofender alguém. 

Refugia-se no cantinho quentinho da banalidade e deixa-se enfeitiçar pelos sorrisos e elogios daqueles que o rodeiam. 

Aqueles que rodeiam o menino da mamã percebem perfeitamente que ele sempre foi muito pequenino dentro da sua flácida fragilidade. 

O menino da mamã já não mora aqui.

Ao trocar de linha em São Sebastião, costeio o olhar sobre um rapazito a enfiar a camisa nas calças bege e sou transportado para um ritual de Verão, que eu tinha com os meus amigos. Todas as terças-feiras íamos ao armário e vestíamo-nos como se fôssemos assistir a um casamento. Aperaltados que nem Dom Corleones, saíamos à noite, de guitarra presa no ombro, ignorando os olhares estupefactos daquele grupo de rapazes escondidos pelo capuz das camisolas, reclinados sobre a cadeira de uma esplanada qualquer a beber “litrosas” decrépitas, até chegarmos à praia dos pescadores. Desprezando o vento estridente e a areia mexeriqueira, que insistia em vaguear, de um lado para o outro, dentro das meias coloridas. Repousávamos como imperadores romanos, acolhidos pelas rochas selváticas. Em toda a nossa virtude, éramos gatos ariscos! Nenhum de nós tinha, no seu dedilhar, os foguetes férvidos de Jimi Hendrix. Nem, por sombras, a harmonia de Angus & Julia Stone, mas tínhamos voz e todo o tempo do mundo. Por isso, gritávamos, dançávamos e ríamos como crianças enroladas na espuma excitada do mar buliçoso.

Ao navegar por essas memórias, dei por mim a entrar porta a dentro da faculdade. Todas aquelas caras novas a rirem sem descanso e a falarem com um sorriso estonteante nos rostos e eu, com os olhos cavados, sem sequer fazer ideia de onde iria ter aula. No final de contas, não me pude queixar, quando me apresentei, todos foram muito acolhedores. No entanto, é outro jogo, este do ensino superior. Enquanto, no secundário, podia dar-me ao luxo de chegar a casa e recostar-me ao sabor da televisão. Agora não, agora a dedicação, não pode ser um coelho que puxo da cartola de vez em quando. 

18 anos, estudante do ensino superior