A Bulgária dividida entre duas candidatas à ONU

Governo apoia Kristalina Georgieva, oposição quer manter candidatura de Irina Bokova.

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Irina Bokova, à esquerda, e Kristalina Georgieva são ambas candidatas ao mais alto cargo da ONU KENA BETANCUR e EMMANUEL DUNAND/AFP

O Presidente búlgaro mandou o país unir-se à volta da candidatura de Kristalina Georgieva à liderança da ONU. Mas união parece ser uma palavra difícil no actual clima de Sófia. Se o Governo está com Georgieva, uma boa parte da oposição está com Irina Bokova, que faz parte da corrida desde o início e não pretende abandoná-la. Os socialistas não gostaram da troca e preparam uma moção de censura contra o Executivo.

O nome de Bokova, directora-geral da UNESCO, com um passado comunista e socialista, sempre foi um sapo duro de engolir para a coligação de centro-direita chefiada por Boyko Borisov. No início da corrida, estava em terceiro lugar e foi a mulher mais votada; na segunda-feira, os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU votaram pela quinta vez, e Bokova ficou em sexto (o ex-primeiro-ministro português António Guterres manteve-se sempre na liderança para a substituição de Ban Ki-moon, que deixa o cargo no final do ano).

A decisão de Borisov não foi uma surpresa. Há duas semanas, os jornalistas foram informados que o Governo se preparava para patrocinar a candidatura de Georgieva, actual comissária europeia com a tutela do Orçamento e Recursos Naturais. Pouco depois, o primeiro-ministro voltaria com a palavra atrás para explicar que iria esperar para ver o que aconteceria depois da quinta votação. “Demos uma última oportunidade para ver os resultados da última votação, a 26 de Setembro. O resultado foi uma queda”, comentou Borisov à agência Novinite. “Seria bom o candidato ser uma mulher e do Leste da Europa. Reconhecemos que esta é uma nomeação com mais possibilidades de sucesso”.

Georgieva, que contava já com o apoio da chanceler alemã, Angela Merkel, e do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, aceitou a nomeação. “Estou profundamente honrada pela decisão do Governo do meu país ter avançado com o meu nome para o cargo de secretária-geral das Nações Unidas”, afirmou num comunicado a ex-economista do Banco Mundial.

“Foi uma decisão difícil”, comentou o ministro búlgaro dos Negócios Estrangeiros, Daniel Mitov. “Mas esta é a hipótese de a Europa de Leste ter um secretário-geral”. Mitov reconheceu que os procedimentos da ONU não contemplam a possibilidade de um país retirar uma nomeação, e que Bokova teria de decidir o que fazer.

Mas a julgar pelas suas palavras, Bokova não irá desistir. Na conta da sua candidatura no Twitter, agradece “o apoio de todos” e diz-se “totalmente empenhada em continuar a corrida”. Já antes tinha denunciado à Novinite: Esta decisão “não tem precedentes na história destas eleições”. Considerou “indigno” que lhe fosse pedido para abandonar a corrida e que com uma segunda candidata do mesmo país, a “Bulgária será motivo de chacota”.

O Presidente Rosen Plevneliev declarou que é altura de “mostrar ao mundo que podemos estar unidos e trabalhar na mesma direcção”, defendeu, citado pelo The Sofia Globe. Plevneliev gostaria de ver a oposição a ultrapassar os seus próprios interesses e convicções pessoais e a fazer parte do esforço de levar a Bulgária à vitória nesta corrida, refere a Novinite.

Não é isso que a oposição se prepara para fazer. O Partido Socialista, a segunda força do Parlamento, pretende negociar com os outros partidos a apresentação de uma moção de censura ao Governo com base na sua política externa, adianta o Globe. “Isto é uma vergonha para a Bulgária”, diz a líder do BSP, Kornelia Ninova. E acusou o primeiro-ministro de “tomar uma decisão devido a pressões externas e contra o interesse nacional da Bulgária”.

 “A nomeação de Kristalina Georgieva foi a gota de água. Há também outros argumentos – a política em relação aos refugiados, a tentativa de criação de guetos no nosso país, as sanções contra a Rússia”, justificou Ninova, citada pela Novinite. Para que uma moção de censura seja aprovada terá de receber 48 votos a favor, ou seja, mais dez do que o actual número de deputados socialistas. O partido de centro-esquerda ABV, com 11 deputados, poderá também dar o seu voto.