Torne-se perito

20 anos de ANIM, 21 filmes e um laboratório entre a película e o digital que quer crescer

Dois ciclos sobre o restauro ou possíveis graças ao restauro, e os números de 20 anos do Arquivo Nacional de Imagens em Movimento.

<I>A Vida é um Jogo</I>, com Paul Newman
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A Vida é um Jogo, com Paul Newman DR

O Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM) faz 20 anos e a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema comemora até ao fim do ano. Da programação fazem parte dois ciclos de cinema, já em Outubro, com 21 filmes ali restaurados ou que têm como base os materiais do arquivo, cuja fundação “é das datas mais importantes para a história da Cinemateca”, disse o subdirector da instituição, Rui Machado, mas também “para o cinema português” e “para o país”.

São filmes fruto da preservação do património fílmico português e internacional, de Buñuel a Preminger, passando por Paulo Rocha ou Catarina Alves Costa. Dois ciclos que pretendem sublinhar a importância da preservação, seja a partir dos 35 mm seja a partir do digital, como destrinçou Rui Machado na manhã desta terça-feira em Lisboa, mas também mostrar que “há um antes e um depois do ANIM” no património cinematográfico português - tanto no que o cinema português conseguiu fazer com o que foi guardado quanto pelo que o cinema em Portugal pode ver depois de a História passar pelos laboratórios.

A Vida é um Jogo, ou o Hustler de Paul Newman, Cidade Viscosa de John Huston, A Paixão dos Fortes de John Ford, Desapareceu Bunny Lake de Otto Preminger ou O Ladrão de Bagdad de Michael Powell e A Ilha dos Amores de Paulo Rocha são alguns dos 11 filmes do ciclo O Trabalho dos Arquivos, “grandes filmes que foram objecto de trabalhos especiais de arquivo nos últimos anos”, que decorre a partir de dia 1 a 27 de Outubro -  Dia Mundial do Património Fílmico - em  que será exibida uma cópia de 35 mm da colecção do Instituto do Cinema Sueco de O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. Já o ciclo A Criação com os Arquivos mostra sobretudo produção portuguesa, sob a forma de documentários ou episódios televisivos de títulos “com base relevante de material de arquivo”. Alguns dos realizadores estarão presentes na apresentação de obras como Natureza Morta - Visages d’une Dictature, de Susana Sousa Dias, Se eu fosse ladrão… roubava, de Paulo Rocha, Fantasia Lusitana, de João Canijo, ou Olhar o cinema português 1896-2006, de Manuel Mozos, num ciclo que decorre entre 1 e 31 de Outubro na Cinemateca e cujos títulos se focam maioritariamente na história do cinema português.

A criação, em 1996, de “um espaço, uma equipa e um equipamento” específicos do ANIM, destaca Rui Machado numa conversa com a imprensa, em Bucelas, nos arredores de Lisboa, permitiu não só preservar e catalogar, mas também centrar a colecção da Cinemateca. “Até 1996, a colecção estava espalhada por quatro ou cinco espaços completamente distantes uns dos outros”, lembra, e “nem uma base de dados tínhamos”. Agora, 20 anos volvidos, “o cinema mudou muito”. A pressão do digital contra o desaparecimento do analógico, da película, uma “violenta transição”, como descreve a Cinemateca num dos seus textos sobre o ANIM, obrigou o Arquivo Nacional e seu laboratório de restauro, uma das suas principais valências, a reorganizar-se – o laboratório do ANIM, criado em 1998, é um dos poucos existentes no mundo com a capacidade de restaurar película e, também por isso, presta serviços para congéneres estrangeiras. No ano passado, criou uma pequena unidade de restauro na área do digital.

O ANIM, como um todo, recebeu nestas duas décadas, 5114 pedidos de consulta e acesso ao seu espólio. Nestes 20 anos, ainda com muitas colecções por tratar, entre reservas, doações e depósitos, existem no ANIM 100 mil materiais identificados (cópias em película, digitais, negativos, etc.), dos quais cerca de 64.500 são película em nitrato ou acetato, em 35, 16 ou 70mm, e 18.351 obras portuguesas catalogadas (longas e curtas-metragens, filmes de animação, filmes caseiros e familiares). Já em 2011, nasceu a Cinemateca Digital, que permite consultar e ver na Internet mais de 400 filmes portugueses que foram alvo de restauro.

“O ANIM está a trabalhar para a comunidade, não está a trabalhar para si próprio”, lembrou ainda o subdirector da Cinemateca, que frisou que todo o programa de comemorações foi “feito pela equipa da casa e com as condições orçamentais que actualmente existem na casa”.

Sobre isso, e sobre a incapacidade de dar resposta ao volume de pedidos externos de serviços do laboratório, por exemplo, Rui Machado revelou que a Cinemateca está a preparar um documento para apresentar à tutela para encontrar soluções para formalizar a sua viabilidade financeira. “Um crescimento do investimento no sector seria facilmente rentabilizado com os serviços prestados”, diz. Conta com 19 trabalhadores, alguns colaboradores e estágios, que não chegam, aos quais se juntam as restrições às contratações na função pública e às aquisições de serviços, obstáculos que o subdirector prevê que possam ser ultrapassados com um “estatuto especial” em que a Cinemateca seria a detentora de uma “entidade de regime privado” – o laboratório de restauro fílmico.

Além dos dois ciclos na Cinemateca, a RTP Memória associa-se às comemorações com a exibição, a 8 e 9 de Outubro, de A Canção de Lisboa, O Costa do Castelo e João Ratão, todos restaurados no laboratório do ANIM e com novas cópias digitais. O ANIM festeja ainda com o lançamento da edição em DVD de Margot Dias: filmes etnográficos (1958-1961), uma colaboração com o Museu de Etnologia há muito anunciada (17 de Outubro) e, ainda sem data, promete a edição também em DVD de Os Lobos e Mulheres da Beira, de Rino Lupo, bem como alguns colóquios sobre a temática do restauro e dos formatos digital e analógico e uma exposição na Cinemateca sobre o 20.º aniversário do Arquivo Nacional. No dia 6, há visita ao ANIM, que se repetirão, mediante inscrição, uma vez por mês em Novembro e Dezembro.

A programação completa dos ciclos de comemoração dos 20 anos de ANIM pode ser consultada aqui.

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