Editorial

Os contadores de mentiras

Obama ja avisou: tudo o que era normal em política americana deixou de o ser. O primeiro debate foi mais uma prova.

Os jornalistas que estão no terreno a cobrir a campanha para as eleições americanos têm um novo jogo. Depois de meses a fazer provas dos factos aos absolutos disparates de Donald Trump, um decidiu provar que, embora à partida impossível, iria contabilizar durante duas semanas todas as mentiras ditas pelo candidato republicano. Em discursos, entrevistas e posts nas redes sociais. Conseguiu. Contou – e publicou no Twitter – um mínimo de dez mentiras por dia. Num dos dias identificou 18. Com uma particularidade: novas e diferentes mentiras. Trump é sempre original. Até na mentira. Provado o desafio, outro jornalista juntou-se: em cinco dias, contabilizou 87 mentiras, uma média de uma mentira por cada três minutos e 15 segundos. O debate desta madrugada entre Trump e Hillary Clinton, visto por um recorde de 100 milhões de pessoas, não fugiu à regra. Trump mentiu e foi desmentido em dez segundos. Foi a prova dos factos mais rápida da história. Hillary Clinton, parece consensual, "ganhou" o debate. No fim, no que muitos viram como a "prova" do assumir da derrota, Trump queixou-se do microfone — ter-lhe-ão dado um estragado. Mas o que fica é a ideia de que, por incrível que pareça, ainda é possível Trump ser eleito Presidente dos Estados Unidos. Nada — nem a mais total ausência de seriedade — parece importar aos milhões que prometem votar nele.