Medina desconhece a ideia de que Lisboa possa “ter turistas a mais”? Sim, mas…

Depois de as suas declarações terem sido classificadas como “no mínimo chocantes”, o autarca veio dizer que também defendeu que é preciso “gerir as transformações” que o turismo traz

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Enric Vives-Rubio

Horas depois de ter afirmado que desconhece “o que é” uma cidade “ter turistas a mais”, e que por esse ser “um conceito sem sentido” mais vale não se preocupar com ele, o presidente da Câmara de Lisboa viu-se obrigado a vir a público explicitar as suas declarações. Fernando Medina confirma a sua veracidade mas alega que elas não reflectem uma outra ideia que foi por si defendida: a de que “erra quem ignorar e não souber gerir as transformações que o turismo está a trazer à cidade de Lisboa”.

“Oiço aí por vezes aquela pergunta muito interessante que é saber se Portugal, e Lisboa em particular, já tem turistas a mais. Pessoalmente, tenho de dizer que não sei que conceito é esse, não sei o que é ter turistas a mais”, afirmou o autarca na manhã desta terça-feira, na sessão de abertura da terceira Cimeira do Turismo Português.

Nesse mesmo fórum, Fernando Medina acrescentou que “também não saberia lidar com o conceito” caso o conhecesse. "Isto é, alguém com turistas a mais, o que faz com esses turistas a mais? Podia ser a reprodução daquele candidato americano, de construir um muro, podia ser outra solução qualquer, não sei", disse o presidente da câmara.   

“Para mim, esse conceito não existe. É um conceito sem sentido. Como de um conceito sem sentido, não ter solução para lidar com ele, mais vale não me preocupar com essa matéria”, afirmou ainda.

Antes de Fernando Medina, também o primeiro-ministro tinha dito não estar preocupado com o aumento do turismo em Lisboa. "É com satisfação que vejo que agora se discute se há turismo a mais em algumas zonas da cidade, que há anos eram zonas abandonadas e em decadência", disse António Costa.

Dirigindo-se a Fernando Medina, que lhe sucedeu na presidência da Câmara de Lisboa, o primeiro-ministro afirmou ter "inveja" do desempenho actual da capital, depois de nove anos em que "Estado, municípios e privados foram capazes de transformar territórios ao abandono".

Já durante a tarde, as declarações de Fernando Medina foram tema de debate na Assembleia Municipal de Lisboa. O assunto foi levantado pelo deputado Ricardo Robles, que as classificou como “no mínimo chocantes”.

“Não são espantosas nem surpreendentes estas declarações porque tem sido essa a política deste executivo. O turismo é quem mais ordena na cidade”, sustentou o líder da bancada do BE.

“Se não quer discutir o problema pode não o fazer, mas pelo menos perceba a realidade com que têm que lidar colectividades e habitantes da cidade, sobretudo do centro histórico”, disse ainda o bloquista a Fernando Medina, avisando-o que iria “ter que lidar” com o problema “a muito curto prazo”.

Em resposta, o presidente da câmara confirmou as citações que lhe são atribuídas, mas sublinhou que elas foram seguidas de “uma terceira afirmação” que os órgãos de comunicação social não reproduziram. Segundo explicou, a última ideia por si transmitida na Cimeira do Turismo Português foi a de que “erra quem ignorar e não souber gerir as transformações que o turismo está a trazer à cidade de Lisboa”, por exemplo ao nível da “habitação, qualidade de vida dos residentes, ruído e bairros históricos”.

“É um erro achar que a cidade é a mesma e não tem que adaptar as suas políticas a uma realidade que mudou”, afirmou Fernando Medina na assembleia municipal, defendendo que só assim Lisboa terá “um turismo sustentável”.

Também o presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, que tinha sido referido antes por Ricardo Robles como alguém que se tem mostrado preocupado com a explosão do turismo em Lisboa, interveio no debate.  

“Nunca me ouviu fazer um discurso contra o turismo e contra os turistas”, afirmou Miguel Coelho, acrescentando que esse “é um discurso de direita”. “O meu discurso é em defesa da qualidade de vida dos residentes da cidade de Lisboa”, frisou o autarca de Santa Maria Maior, que considera que se há hoje “residentes que são expulsos das suas casas” (graças àquilo que designou como “uma autêntica caça à habitação”) é devido a dois factores: a Lei das Rendas e “a proliferação do alojamento local de forma descontrolada”.

Nesta sessão da assembleia municipal, Fernando Medina anunciou que foi alcançado um acordo com o Instituto Português de Oncologia (IPO) para que “as suas instalações se mantenham” na Praça de Espanha “e possam ser reforçadas e melhoradas”. Segundo Fernando Medina, será construído no local “um novo edifício de ambulatório no actual terreno do IPO, que é municipal”.

Já a “reorganização e reconstrução como centralidade” da Praça de Espanha, disse, será objecto de um concurso de ideias. Fernando Medina fez ainda saber que é intenção da câmara utilizar os terrenos de que é proprietária nesta área para “reforçar a oferta de escritórios na zona”.