O debate mais importante de sempre pode ser o mais irrelevante

Hillary Clinton e Donald Trump enfrentam-se esta segunda-feira pela primeira vez, a seis semanas das eleições para a Casa Branca. A tradição diz que o momento pode ser decisivo, mas os apoiantes do candidato do Partido Republicano estão habituados a perdoar-lhe quase tudo.

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Clinton e Trump vão ter três debates PAUL J. RICHARDS/AFP

Ao fim de um ano e meio a atirar granadas verbais para o meio da campanha eleitoral nos Estados Unidos, Donald Trump tem hoje o seu primeiro teste a sério contra Hillary Clinton, uma candidata que passou o mesmo tempo a escorregar na mensagem de que a Casa Branca não pode ser dela só porque sim. Esta noite (2h, hora de Portugal continental), no primeiro de três debates televisivos, os dois candidatos do Partido Republicano e do Partido Democrata menos populares das últimas décadas vão travar duas lutas em simultâneo: uma para saírem como os vencedores do debate, e outra, mais importante, para convencerem os eleitores indecisos de que nenhum deles é apenas o menor de dois males.

Desde que John F. Kennedy e Richard Nixon inauguraram a era dos debates televisivos entre candidatos à Presidência dos Estados Unidos, há precisamente 56 anos, nenhum outro frente a frente foi esperado com tanta ansiedade como o desta noite.

Nos últimos dias, vários jornais norte-americanos tornaram públicas as suas preferências, e se a escolha do New York Times por Hillary Clinton era esperada, houve muitas surpresas entre publicações conservadoras e fiéis aos candidatos do Partido Republicano.

O Dallas Morning News, por exemplo, decidiu apoiar Hillary Clinton depois de 75 anos a recomendar o voto nos republicanos. Na última sexta-feira, a direcção do Cincinnati Enquirer seguiu o mesmo caminho e quebrou uma tradição com quase 100 anos: "O Enquirer tem apoiado republicanos para a Presidência desde há quase um século – uma tradição que esta direcção não encara com ligeireza. Mas esta não é uma corrida como as outras, e os tempos que vivemos também não são comuns. O nosso país precisa de uma liderança calma e com ideias para lidar com os desafios que enfrentamos no país e no estrangeiro. Precisamos de um líder que consiga tirar o melhor dos americanos, e não o pior. É por isso que há apenas uma opção quando elegermos um Presidente em Novembro: Hillary Clinton."

Mas estas declarações de amor a Hillary Clinton por parte de sectores conservadores e a aversão a Donald Trump demonstrada publicamente por personalidades do Partido Republicano como Mitt Romney são também um sinal dos problemas de Hillary Clinton. Basta imaginar que era possível recuar um ano e meio e apresentar este cenário aos analistas políticos e peritos em sondagens: em Setembro de 2016, no dia do primeiro debate, Clinton teria como adversário Trump, contaria com o silêncio da família Bush e com o apoio de alguns jornais conservadores e, ainda assim, ninguém de bom senso poderia apostar tudo na sua vitória.

Desde que entrou na corrida presidencial aos pontapés, em Junho do ano passado, Donald Trump já teve mais epitáfios do que qualquer outro candidato na história moderna da política norte-americana. Primeiro, a própria campanha seria uma anedota, e daquelas muito breves e secas; depois, seria impossível que ele conseguisse ganhar à multidão de senadores e governadores que concorreram à nomeação pelo Partido Republicano; por fim, bastaria que ele continuasse a ofender meio mundo e a sugerir políticas extremistas para que Hillary Clinton tivesse uma passadeira vermelha estendida em direcção à Casa Branca. E agora, a poucas horas do primeiro debate, é evidente que o candidato do Partido Republicano vai ceder perante a experiência, a ponderação e a calma da sua adversária. Ou talvez não. Ou talvez sim. Já ninguém sabe nada, nem o principal conselheiro de Barack Obama em 2008 e 2012.

"A sra. Clinton tem méritos reconhecidos nos debates, e não há dúvidas de que forçou o meu candidato a melhorar a sua prestação e que melhorou a sua própria prestação nos últimos anos. Mas desta vez, esta segunda-feira, vai enfrentar um tipo de opositor completamente diferente", escreveu David Axelrod no New York Times.

Mesmo com toda a sua experiência de conselheiro e estratego, Axelrod ainda não percebeu que Donald Trump vai aparecer esta noite na Universidade Hofstra, no estado de Nova Iorque, para um debate de 90 minutos sem intervalos.

"Pode ser que tenha uma prestação mais discreta, convencido de que precisa de mostrar que tem temperamento para ser Presidente e algum domínio sobre assuntos substantivos, para cortejar eleitores indecisos que não gostam de Clinton mas que duvidam da preparação de Trump para o cargo. Mas se Trump decidir continuar a montar o cavalo que o trouxe até aqui, Clinton vai enfrentar uma celebridade apostada em transformar o evento menos num debate e mais num espectáculo", avisa David Axelrod.

Ainda assim, Hillary Clinton mantém uma ligeira vantagem na média das sondagens, e não faltam analistas a desvalorizar a importância destes debates para o resultado final.

Um deles é Jonathan Zimmerman, professor de História na Universidade da Pensilvânia. Num artigo publicado no site do jornal Newsday, Zimmerman afirma que Donald Trump não vencerá as eleições por causa dos debates, mas defende que Hillary Clinton também não. "Seja o que for que Trump e Clinton façam no debate, provavelmente não vão convencer os eleitores a mudarem o sentido de voto. A maioria das pessoas que vê estes debates já tomou as suas decisões; estão à procura de validação, e não de informação. E este pode ser o facto mais politicamente incorrecto de todos", afirma Zimmerman, classificando a suposta relevância dos debates presidenciais como um "mito" nascido no momento em que Richard Nixon começou a suar no debate com John F. Kennedy – a ideia de que Kennedy venceu o debate na televisão mas perdeu-o na rádio mantém-se no imaginário político norte-americano até hoje, "mas esse estudo baseou-se em 282 ouvintes, a maioria habitantes de áreas rurais e que provavelmente já estavam predispostos a votar em Nixon".

Mais recentemente, em 1988, o então candidato do Partido Democrata, Michael Dukakis, viu escrito o seu epitáfio político durante um debate com George Bush – ainda na semana passada, a NBC News lembrou esse momento sob o título "A resposta no debate que arruinou Dukakis em 1988".

Questionado sobre se manteria a oposição à pena de morte se a sua mulher, Kitty Dukakis, fosse violada e assassinada, o candidato respondeu que não, e de uma forma impassível: "Não. Sempre me opus à pena de morte durante toda a minha vida, não vejo nenhuma prova de que possa servir como dissuasora. Acho que há formas melhores de combater a criminalidade violenta." Mas a verdade, diz Jonathan Zimmerman, é que Dukakis já estava a cair nas sondagens antes do debate e um estudo da Gallup mostrou que a sua prestação teve "pouco ou nenhum impacto nas preferências dos eleitores".

Mas o debate desta noite vai ter lugar num universo completamente diferente daquele que assistiu aos debates de Richard Nixon ou mesmo de Michael Dukakis. Seja qual for o veredicto dos analistas, é quase certo que Donald Trump não vai perder um segundo do seu tempo a explicar possíveis falhas – ele vai ter uma prestação "fantástica" e fará questão de partilhar isso com os seus 12 milhões de seguidores no Twitter, muitos deles apoiantes fervorosos e imunes a qualquer excesso, fraqueza ou uma combinação de ambas as coisas por parte do seu candidato.

Na mesma medida, as eleições mais fracturantes das últimas décadas nos Estados Unidos deverão manter a sua imunidade perante qualquer debate e qualquer análise mais tradicional sobre a prestação dos candidatos. Como Donald Trump já provou várias vezes no último ano e meio, não basta suar na televisão para se perder uma batalha, e nenhuma resposta dada de forma impassível é suficiente para tirar alguém da guerra – no caso do candidato do Partido Republicano não basta sequer ofender adversários políticos e hostilizar vários segmentos da população. Trump pode vestir a pele que quiser durante o debate, que os seus apoiantes estarão com ele até ao fim. Mas as eleições do dia 8 de Novembro são outra história, e é por isso que o debate desta segunda-feira muito dificilmente fará saltar as agulhas das sondagens num ou noutro sentido: apesar de tudo, e para felicidade de Hillary Clinton, as eleições não se ganham nos debates, e muito menos no Twitter.