À quinta votação na ONU, Guterres é o sólido favorito

Ex-alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados ganhou nova votação informal no Conselho de Segurança. A 5 de Outubro, a eleição inclui cores e os países com poder de veto vão ter de “dar a cara”

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Denis Balibouse / Reuters

Mais uma vez, os 15 membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas deram a maioria dos votos a António Guterres, o ex-primeiro-ministro socialista e ex-alto-comissário da ONU para os Refugiados que está há meses numa intensa corrida para o cargo de secretário-geral da organização.

Guterres manteve esta segunda-feira a mesma votação que teve no último escrutínio informal, a 9 de Setembro: 12 votos a “encorajar” a sua candidatura, dois a “desencorajar” e uma abstenção.

Todos os outros oito candidatos ainda na corrida desceram posições, em particular os que têm disputado os lugares imediatamente a seguir ao topo. Mais uma vez também, confirma-se o padrão das votações anteriores e não há um segundo lugar sólido.

O eslovaco Miroslav Lajcak, que do nada emergira a meio da corrida e se instalara transitoriamente no segundo lugar, teve agora menos votos do que há duas semanas (8 dizem “sim”, 7 “não” e zero abstenções) e desceu para terceiro. Foi ultrapassado pelo sérvio Vuk Jeremic (8-6-1). O esloveno Danilo Turk e a argentina Susanna Malcorra ficaram empatados, tendo ambos recebido a “fórmula” 7-7-1, que poderá ser lida como um resultado que anula a própria candidatura.

A seguir, em sexto e sétimo lugares, ficaram a búlgara Irina Bokova (6-7-2) e a neozelandesa Helen Clark (6-9-0), em tempos tidas como fortes candidatas. Em penúltimo, está o macedónio Srgjan Kerim (6-9-0) e em último a moldova Natalia Gherman (3-11-1).

Esta quinta votação informal dos 15 membros do Conselho de Segurança — que, além dos cinco permanentes, inclui agora Angola, Egipto, Espanha, Japão, Malásia, Nova Zelândia, Senegal, Ucrânia, Uruguai e Venezuela — encerra o primeiro ciclo do processo de escolha do próximo secretário-geral da ONU.

O sul-coreano Ban Ki-moon deixa o cargo em Dezembro deste ano, após dois mandatos de cinco anos.

Depois de meses de campanha aberta, e num esforço por introduzir mais transparência na escolha do que é conhecido como “o emprego mais impossível do mundo”, este ano a ONU incluiu no processo, para além das eleições informais, duas audições públicas com todos os embaixadores dos 190 Estados-membros e uma audição de uma hora, à porta fechada, com o Conselho de Segurança.

O próximo passo é a 5 de Outubro, quando o Conselho votar de novo e usar, pela primeira vez, um código de cores. Apenas os votos dos cinco membros permanentes serão coloridos — esta é a forma de o mundo saber se os votos de “desencorajamento” vêm de um país com poder de veto.

Só se fazem straw polls para a escolha do secretário-geral das Nações Unidas desde 1991, pelo que o histórico tem apenas 25 anos. O padrão existente indica no entanto que, para o primeiro mandato, os candidatos a secretário-geral que foram front runners e tiveram um apoio continuado nas votações seguintes acabaram por ser o nome proposto à Assembleia Geral.

Mas no processo deste ano há dois factores que fazem aumentar a incerteza: a pressão para que seja escolhido um sucessor da Europa de Leste, um grupo regional que, tendo deixado de existir com a queda do Muro de Berlim, persiste no organigrama da ONU, e preferencialmente mulher.

Manobras de bastidores

Por causa disso, o Governo português — que formalmente apresentou a candidatura e que montou no MNE um mini-quartel-general para a campanha — tem sido muito cauteloso perante o que são inequivocamente boas notícias. Em Nova Iorque, na semana passada, Guterres disse ter "consciência de que há ainda muitas etapas a percorrer" e, "sobretudo, que é muito imprevisível a fase final desta escolha". E o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, tem comentado as votações de forma mais ou menos lacónica, usando frases como “foi a melhor votação possível” ou “Guterres está numa posição que se consolida de votação para votação”.

Não é para menos. O candidato português tem alguns votos de “desencorajamento”. E persistentes. Se teve zero na primeira eleição (29 Julho); teve dois votos contra na segunda (5 Agosto); três na terceira (29 Agosto); dois na quarta (9 de Setembro) e dois esta segunda-feira. Serão estes votos negativos de países com poder de veto? “A votação de 5 de Outubro vai ajudar a perceber melhor como estão as coisas no Conselho de Segurança”, disse um diplomata que conhece o dossier e que há anos acompanha os processos de eleição do secretário-geral. “O uso da cor vai obrigar os P5 [os cinco países com assento permanente e poder de veto] a dar a cara. Obriga-os a assumir uma posição.”

A hipótese de Guterres não ser o próximo secretário-geral continua em cima da mesa. Se é verdade que a diplomacia portuguesa tem sublinhado de forma discreta que, desde o início do processo, em Fevereiro, é notório que Guterres não tem anticorpos entre os membros do Conselho de Segurança, também é um facto que não cessam os rumores de que há ainda a hipótese de entrar na corrida um candidato de última hora.

O dark horse mais falado é Kristalina Georgieva, comissária da União Europeia para o orçamento e recursos humanos, uma conservadora da Bulgária (ou seja, uma mulher da Europa de Leste), que faz parte do núcleo duro do presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker. Nos bastidores, fala-se do lobby que o próprio estará a fazer junto da Alemanha e da Rússia a favor da sua comissária. De forma aberta — e criticada —, Martin Selmayr, chefe de gabinete de Juncker, disse em Bruxelas que Georgieva “seria uma secretária-geral forte que deixaria muitos europeus orgulhosos”.

Num muito pouco diplomático confronto, Moscovo fez saber que não apoia Georgieva, mas ninguém sabe quem Moscovo apoia nem se a Bulgária vai retirar a sua candidata Bukova para a substituir por Georgieva. Neste suspense, há dois factores relevantes. A comissária búlgara admitiu há dias estar a ser encorajada para se candidatar à ONU e ao mesmo tempo o Governo de Sófia começou a preparar terreno para deixar Bokova cair. A frase do primeiro-ministro búlgaro, Boiko Borisov, não podia ter sido mais explícita: “Se depois de dia 26, ela não for primeira ou segunda [mais votada], não temos maneira de continuar e iremos então decidir como actuar.”

As águas estão agitadas. Este fim-de-semana, o Wall Street Journal criticou frontalmente Guterres num editorial e assumiu a preferência pelo candidato sérvio Jeremic, mas, poucos minutos depois da votação desta segunda-feira, a correspondente do jornal nas Nações Unidas, Farnaz Fassihi, citou fontes diplomáticas do Conselho de Segurança segundo as quais, perante os sucessivas resultados, “ou é António Guterres de Portugal ou não é ninguém”.

Campanha ao minuto

Em Lisboa e em Nova Iorque, onde a corrida é acompanhada ao minuto, ninguém próximo do processo esconde o desconforto perante a possibilidade de surgir um dark horse a dois meses de Ban Ki-moon sair. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa disse que "seria estranho" entrar agora um candidato na corrida e o primeiro-ministro António Costa usou mesmo a expressão "manobras de última hora" para criticar esse possível cenário. Fora dos microfones, a linguagem endurece. Fala-se de “completa e evidente farsa” e avisa-se que a “ONU não está em condições de se dar ao luxo de uma farsa”.

Nesta recta final, Guterres poderá ter o timing a seu favor. Como resume um diplomata veterano, o Conselho de Segurança “tem de resolver, tem de encontrar uma solução". Guterres não é o candidato de primeira escolha de nenhum dos cinco membros permanentes, mas é público que os Estados Unidos (que apoiavam Malcorra) querem muito que o processo termine rapidamente, de modo a que o período de transição seja feito ainda durante o fim de mandato de Ban Ki-moon. E a Rússia, que assume a presidência do conselho entre 1 e 31 de Outurbo, quer ter a “autoria” do fecho do processo.

A 5 de Outubro, há dois grandes cenários para Guterres. Se o candidato português não receber nenhum "desencorajamento" colorido, o conselho pode terminar as consultas informais e propô-lo à Assembleia Geral, para a votação formal. Se, pelo contrário, algum dos P5 votar contra, inicia-se nova fase. Aí, a diplomacia portuguesa terá de tentar perceber se é um veto definitivo ou se é reversível — e, nesse caso, como.

Notícia corrigida às 20h28: o dia da próxima votação foi mudado de 4 para 5 de Outubro.