Opinião

Serviço público da língua portuguesa

É de uma partilha de responsabilidades que falamos, de que todos serão beneficiários.

A língua portuguesa tem uma difusão planetária. Tal obriga que as instituições de ensino superior e de investigação, em especial as que se dedicam à cultura e à defesa do nosso idioma, desenvolvam ações articuladas, coerentes e persistentes, em ligação com os Estados que usam o português como língua oficial, bem como com as instituições da sociedade civil, no sentido de pôr em comum as ações necessárias com vista à preservação, salvaguarda e desenvolvimento da língua e da cultura.

A Universidade de hoje deve saber aliar a compreensão das raízes e o conhecimento perene da humanidade com a capacidade inovadora – não só para seguir as transformações científicas, técnicas, sociais, económicas e culturais, mas também para poder antecipar novos caminhos e para compreender a incerteza e o que Bernardo Soares designa como desassossego. Eis por que razão falar de capacidade criadora significa perceber que o processo do cientista é em tudo semelhante à força do artista. Os dois processos encontram-se, apesar de existir a tentação de os considerar diversos e separados, erro em que comummente se incorre. O caso de Leonardo da Vinci é significativo. Aí encontramos as duas tendências reunidas na mesma personalidade fascinante, o que nos permite entender que em momentos de criatividade extraordinária a capacidade humana é capaz de seguir diversos caminhos e apressar-se na busca e encontro do conhecimento. E se falamos das raízes e do conhecimento perene da humanidade, lembramos o fecundo diálogo entre o trivium e o quadrivium, em que a ciência, a cultura, a arte, a educação, a economia e a sociedade se encontram naturalmente. E assim a ciência deixa de ser vista como compartimentada entre duas culturas, antes se baseando numa sã complementaridade, especialidade e interdependência. A complexidade obriga à cooperação e ao espírito de equipa. O diálogo cultural e científico é o grande desafio contemporâneo. A lógica, a gramática e a retórica, do trivium, nas antigas artes liberais, projetam-se naturalmente na aritmética, na música, na geometria e na astronomia, do quadrivium. E veja-se como o desafio contemporâneo é, afinal, o estímulo duradouro em que, no entanto, e cada vez mais, as antigas artes mecânicas se tornam interdependentes do pensamento e da capacidade criadora. Quando a música e a poesia se aproximam e integram no pensamento científico são a complexidade, a diversidade, o conhecimento, a compreensão que melhor se podem entender. E assim prudência e arte se articulam, com a ciência e a sabedoria. A prudência como pensamento coerente e humano, das pessoas para as pessoas, e a arte como pensamento aplicado ao saber fazer.

Quando Charles Percy Snow falou em Cambridge do “abismo da incompreensão mútua” acusou os dois lados de falta de lucidez. “Já reparou como a palavra “intelectual” é usada hoje em dia?” O matemático Hardy sentia-se, assim, excluído do conjunto do conhecimento… Como se a complexidade fosse uma quimera ou uma ilusão… Que bizarra tão perigosa separação! Como se Pico della Mirandola não tivesse existido… A Universidade de hoje está, assim, confrontada com o poderoso desafio  da cultura científica capaz de ligar complexidade, rigor e diálogo entre saberes, E a Universidade Aberta e o ensino à distância encontram-se na linha da frente desse exigente compromisso. Estamos numa zona central e não marginal da difusão do conhecimento.

A Universidade Aberta deve, assim, ser encarada como catalisador relativamente a um novo tipo de serviço público – o serviço público da língua portuguesa no mundo. A vocação própria da Universidade de ensino à distância de qualidade deve assim constituir-se em fator de enriquecimento: do sistema de educação permanente, da rede do ensino superior, do serviço público de comunicação social, do desenvolvimento das novas tecnologias de informação e das culturas da língua portuguesa, da cultura científica, do desenvolvimento humano e da afirmação global. Ora, é de uma partilha de responsabilidades que falamos, de que todos serão beneficiários e em que toda a Universidade tem de estar envolvida, sem ciúmes nem exclusivismos. Eis por que razão temos de considerar uma instituição como a Universidade Aberta uma peça crucial na Universidade portuguesa… Eduardo Lourenço tem-nos ensinado, com lucidez, que a nossa cultura e as culturas que a nossa língua gera obrigam à vivência de uma identidade aberta e complexa que precisa de fazer das fraquezas forças. Não podemos responder às ambições dos nossos filhos com as audácias dos nossos pais. Temos de olhar para diante, descrendo do improviso e apostando na exigência, na organização e no empenhamento.

Administrador da Fundação Gulbenkian. Texto com base na intervenção do doutoramento honoris causa na Universidade Aberta, em que foi apadrinhado pelos Professores Roberto Carneiro e Carlos Reis