Crítica

Fazer jus ao património: viva La Giuditta!

A oratória de Francisco António de Almeida sobre a história bíblica de Judite e Holofernes há dez anos que não se ouvia no país.

Foto
Os Músicos do Tejo voltaram a demonstrar o seu valor, com verve, precisão e sensibilidade dr

A oratória de Francisco António de Almeida sobre a história bíblica de Judite e Holofernes, apresentada pela primeira vez em Roma fez já 290 anos, foi modernamente redescoberta há pouco mais de um quarto de século por René Jacobs, que a gravou; tem desde então tido raras apresentações entre nós (há dez anos que não se ouvia no país, e há mais tempo ainda na capital).

Ora, a sua excepcional valia estética, em conjugação com a sua autoria, militaram para a sua promoção a património musical nacional — embora de forma imaterial, já que as suas fontes se conservam na Alemanha. Este reconhecimento requer, como muita outra música de autores nacionais, algum cultivo, através da publicação, da continuidade interpretativa e até da reavaliação estilística (normalmente apresentado como uma obra-prima do Barroco musical, soa-me já devedor dos ventos galantes que então sopravam de Nápoles). É assim de saudar este retorno à partitura, protagonizado pel' Os Músicos do Tejo e por cantores de primeira água, com o contratenor Carlos Mena à cabeça.

Na última dúzia de anos o panorama da interpretação em instrumentos da época barroca em Portugal, já marcado pela presença de agrupamentos como A Capela Real e Flores de Música, foi sobremaneira enriquecido pelo surgimento e paulatina afirmação de outros, como Os Músicos do Tejo, o Divino Sospiro e o Ludovice Ensemble. Sempre que os apoios granjeados garantam períodos de trabalho estável, a grande qualidade musical destes grupos permite-lhes ambicionar a interpretação de obras de grande fôlego, como aquela em apreço (contrariamente ao indicado pelo programa, a duração do espectáculo foi de 2h45, e não 1h30...).

A perfeição, porém, não é fácil de atingir, mormente quando as oportunidades escasseiam para rodar a especialização em instrumentos pouco solicitados. Como não se montam muitas obras com escrita de carácter teatral, o domínio técnico das trompas naturais, muito traiçoeiras, pode ser acidentado. Foi o que ocorreu no início do concerto; embora a orquestração, com justiça poética, lhes tenha seguidamente calado o pio, e os trompistas tenham surgido em boa forma depois do intervalo, os compassos finais não se livraram do seu sobressalto.

Mas, metais à parte, os Músicos do Tejo voltaram a demonstrar o seu valor, com verve, precisão e sensibilidade, incluindo um baixo contínuo cheio, fluido e bem entrosado com os cantores. Estes ocuparam naturalmente o primeiro plano. Carlos Mena (Ozia), discípulo de René Jacobs, ostentou o seu fraseado fino e insinuante logo na ária Tortorella, se rimira, e a sua fabulosa arte da variação, usando vários registos, no Da Capo da ária Giusto Dio. Na segunda parte esteve bem mas não tão brilhante, talvez por cansaço. A soprano Ana Quintans (Achiorre) alardeou, como de costume, um timbre rico e uma emissão exacta, com rara sobriedade e inteligência estilística; o seu papel não permitia grandes voos, mas não deixou de encantar, por exemplo, na ária Vengo a te.

O tenor madeirense Alberto Sousa (Oloferne) era o solista mais afastado, no seu percurso, do universo da música antiga; convidado para o papel de estrangeiro inimigo e com a promessa de ver a sua cabeça cortada no final, não se fez rogado, introduzindo alguma diferença na abordagem. De facto, alheando-se por vezes, por transbordo de energia, do culto camerístico da microarticulação e da microafinação, foi sempre um intérprete convicto e convincente, vocalmente ágil e poderoso. A sua assimilação do modelo da variação setecentista superou as expectativas, o que foi especialmente patente na ária Cara, non paventar.  

O papel principal (Giuditta) coube à soprano açoriana Sandra Medeiros, que esteve plenamente à altura, apesar da precipitação na ária Dalla destra Omnipotente, que levou ao único momento de desencontro rítmico com a orquestra registado ao longo do concerto. Conjugando a intensidade interpretativa, a destreza técnica e uma emissão vocal uniformemente clara e precisa, Sandra Medeiros ocupou a cena com autoridade e deliciou a assistência, muito religiosamente, com a sua fé assassina. Neste caso, é um elogio dizer que a intérprete fez sangue. Pena é que o público tenha sido tão escasso, sinal de Verão tardio ou de pouco investimento na educação sobre este tipo de património...