Opinião

So long, Mariana Mortágua

Se o anti-capitalismo do Bloco vingasse, se o Governo desatasse a tributar a eito fortunas, a opção do país por um regime que o vincula à Europa, à democracia e à modernidade estariam em causa.

As milícias que fazem a guarda do Governo tiveram esta semana uma lista de alvos políticos para abater com a facilidade com que se caçam os patos. A polémica desencadeada pelo anúncio de um novo imposto sobre o património imobiliário deu lugar a uma emboscada que fulminou sem piedade os delírios dos partidos da direita e concedeu ao tripé que sustenta o Governo um novo fôlego para camuflar as suas divergências internas. Nesta escaramuça liderada por Mariana Mortágua houve de tudo: de devaneios à demagogia ou da dissimulação à meia-verdade, pelo que sobrou pouco espaço para três questões essenciais: porquê um imposto sobre os que têm mais riqueza patrimonial num país onde, diz o Governo, não há austeridade? O que levou o Bloco a cavalgar o imposto e a convocar o PS na sua luta contra o demónio do capital? Por que razão reagiram o PSD e o CDS como se em causa estivesse o fim do mundo?

Comecemos pelo fim. Pela reacção destemperada da direita. As profecias sobre um novo “saque” fiscal, sobre a chegada de um novo PREC ou os pavores panfletários sobre o fim da economia de mercado são estúpidas e risíveis. Cedo se percebeu que um imposto sobre o património dos mais ricos faz afinal parte dos compromissos social-democratas que (o perigoso estalinista) Pedro Passos Coelho tinha defendido no último Congresso do PSD. De imediato se constatou que, afinal, Portugal está entre os países da OCDE que menos tributam o património. No auge da crise, em 2011, (o perigoso trotskista) Miguel Cadilhe propôs “uma contribuição de 3 ou 4% sobre o património líquido” dos portugueses mais ricos sem que os fundamentos da civilização ocidental tivessem abalado. Ou seja, como se escrevia nesta coluna no último domingo, num quadro de crise “vale mais taxar património imobiliário acima do meio milhão de euros do que voltar a sobrecarregar o IRS ou o IVA” ou de que “cortar nas prestações sociais”.

Perante um cenário destes, o discurso da direita sobre o advento dos papões atravessou a tal linha vermelha a partir da qual os políticos tentam “fazer de nós parvos”, como escrevia esta sexta-feira David Pontes no JN. A parvoíce tem, no entanto, uma origem e uma explicação. Que nos obriga a regressar ao início da polémica. Ao modo como o imposto foi anunciado e ao contexto que o anúncio criou. Primeiro, ninguém consegue entender por que há-de o Governo inventar impostos quando se mantém firme e hirto nas suas convicções sobre o cumprimento do défice este ano e no próximo e quando recusa dar ouvidos ao Conselho das Finanças Públicas, à Unidade Técnica de Apoio Orçamental, à Comissão Europeia ou ao FMI sobre a necessidade de adoptar medidas adicionais para controlar o monstro. A menos que… haja por aí uma armadilha. Uma manobra de propaganda que rende de impostos talvez 60 milhões mas traz dividendos políticos muito mais valiosos. É aqui que entra a estrela da semana. Mariana Mortágua.

O facto de ser uma deputada de um partido que não integra o Governo a anunciar o imposto é o mal menor da história - bem sabemos que o Governo é uma construção sobre estacas cuja consistência exige a partilha de protagonismo. O que é notícia é o que se segue, quando Mariana Mortágua contextualiza o super-IMI num discurso que nos faz regressar aos esplendorosos devaneios da extrema-esquerda. Ao dizer que, "do ponto de vista prático, a primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar a quem está a acumular dinheiro", Mariana Mortágua recupera o facciosismo da luta de classes e regressa ao doentio nós contra eles – “os ricos que paguem a crise”, dizia-se no auge do PREC. Depois, ao convocar o PS para pensar “até onde está disposto a ir para constituir uma alternativa global ao sistema capitalista", desenterrou os espantalhos de uma esquerda petrificada e enterrada pela História – e pelos votos dos portugueses. Não havendo nem a China de Mao nem a URSS de Estaline a servir como modelo, não se sabe bem o que é essa “alternativa global”. Há quem diga, com maldade, que o modelo é a Venezuela. Não será com certeza uma alternativa onde a democracia liberal se possa encaixar. 

O Bloco sempre defendeu estas posições e as suas teses nunca tiraram o sono a ninguém. Com a apologia de Mariana Mortágua, as coisas mudaram um pouco. A sua inteligência aguda e a sua competência embrulhada numa pose blasée tornaram-na numa qualificada herdeira de uma ortodoxia anticapitalista bafienta que pode encontrar na crise terreno fértil para medrar – como na Grécia ou na Espanha. Quando alguém com este perfil anuncia um novo imposto em nome de um Governo ao qual não pertence e depois o enquadra numa mundividência que a maioria esmagadora dos portugueses recusa, temos um caso. Podemos recear a contaminação do Governo que, sejamos justos, tem governado o país com o programa eleitoral do PS. O Bloco (e o PCP) limitou-se a aparecer na sua história a protagonizar o lobo que veste a pele do cordeiro e agora tirou a pele.  

É neste mapa que se montou a cilada à direita. Mariana Mortágua lança o engodo com o imposto e desata a dar porrada nos malandros dos ricaços instalados nas sinecuras do capitalismo. Quem a escuta recebeu na última semana notícias sobre a desigualdade dos rendimentos, ouviu falar sobre o acréscimo da carga fiscal aos mais desfavorecidos e nem lhe passa pela cabeça pagar mais IRS ou mais IVA. O discurso de Mariana faz todo o sentido. Funciona. Para sorte do Governo e para azar da direita, a maioria dos portugueses quer lá saber das ameaças jacobinas e esquerdizantes. Como disse o Presidente numa notável repetição do seu antecessor, a ideologia acaba onde começa a realidade. Se um dia o Bloco chegar ao poder, lá terá de meter o rabo entre as pernas como o Syriza. A única forma de combater as fantasias do Bloco é através da racionalidade e da inteligência, bens que, como se sabe, escasseiam na direita. A direita poderia insistir que, no momento actual, o país precisa desesperadamente de um discurso amigo das empresas e do investimento. Mas não. O PSD e o CDS falaram do papão do comunismo.  

Mariana ouviu de tudo, não tremeu e consolidou-se como a nova musa do delírio esquerdizante. O povo adora ilusões ciciadas em voz doce. O vazio da oposição ajuda-a. Se o anti-capitalismo do Bloco vingasse, se o Governo desatasse a tributar a eito fortunas, a opção do país por um regime que o vincula à Europa, à democracia e à modernidade estariam em causa. Mas isso pouco importa. Num país onde a riqueza é um pecado, tirar aos ricos para dar aos pobres é uma mensagem condenada ao sucesso. Daí o incómodo do PCP. Daí a irritação do PS moderado. Daí o sucesso de Mariana. A patuleia com a fibra de Maria da Fonte e a ousadia de Zé do Telhado sabe o que quer e sabe o que faz. Enquanto o PS bater palmas, esperem por muito mais. So long, Mariana.